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Ryoki Inoue
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Crianças de ontem e crianças de hoje

Nas conversas com meu filho caçula, muitas e muitas vezes surge o assunto que começa com as frase clássica: “no meu tempo...” e logo percebo comoestou velho. Porém, nem por causa disso, deixo de contar como era a vida “quando eu era criança”, mesmo que isso remonte a quase seis décadas atrás.

Quase sempre o Georges, meu caçula, mostra dificuldade em entender por que ele foi criado de maneira tão diferente daquela como eu fui criado. Assim, por exemplo, eu andava a pé na noite de São Paulo, voltando da aula na Aliança Francesa, ali perto da Rego Freitas, até a rua Piauí, subindo pela Martim Francisco. Muitas e muitas vezes, às oito horas da noite, resolvia comer uma esfiha na Avenida São João ou tomar um sorvete na Marechal Deodoro. Um pouco mais tarde, ia ao Taco de Ouro, numa sobreloja na esquina da Ipiranga com a Avenida São João, ou ao Salão Maravilha, para ver Carne-Seca ou Zé do Caixote jogarem snooker. E nunca fui molestado por ninguém, nunca fui abordado por nenhum ladrão, jamais alguém se aproximou para me oferecer drogas. Lembro-me que o Luiz Boné (outro grande jogador de sinuca) olhou feio para mim quando provei um gole de cerveja do copo de meu amigo (nove anos mais velho e já estudante universitário), Luiz Carlos Bueno. “Criança toma, no máximo, uma gasosa” disse ele, passando giz em seu taco, “e se você acender um cigarro, agora, eu o faço engoli-lo!”


Fiquei com cara de **, mas aprendi a lição. E eu já estava com 14 anos de idade, já era faixa-preta de judô e caratê, achava-me um homem feito.


Eu ia para o colégio, na metade final da década de 1950, descendo a pé a Avenida Angélica e via, à porta de todas as casas, o litro de leite, o filão de pão, o jornal e a indefectível barra de gelo. Sim, uma barra de gelo, pois as geladeiras domésticas, em sua imensa maioria, não eram mais do que caixas cujas paredes eram recheadas de lã de vidro como isolante térmico e o gelo era posto num compartimento na parte de cima. O ar mais frio descia e resfriava (um pouco) a caixa, proporcionando uma ainda que precária conservação dos alimentos.


E ninguém roubava o leite e nem o pão...


Brincávamos na rua. Havia as “turmas” de moleques, no meu caso, a temida Turma da Baronesa de Itu e a nossa, a Turma da Imaculada Conceição. Havia confrontos entre elas, fosse no jogo de taco, fosse na pelada de rua ou mesmo em brigas, embates corporais (com regras bem claras, não se podia usar paus, pedras, morder, dar soco na cara ou chute no saco). Nunca se ouviu falar de “Bulliyng”, de preconceitos raciais ou quaisquer outros tipo de segregação ou de discriminação. Tínhamos apelidos, alguns bastante pejorativos. Fábio Oliveira do Val era conhecido como “Quatrolho” e Francisco de Barros Campos Jr. era o “Coruja”, pois seus óculos, além de fortes, eram grandes. Eu era o “Japa”, e jamais isso me fez desenvolver qualquer complexo de discriminação.


Muito menos, jamais soubemos que qualquer um daqueles moleques estivesse sendo usado como “avião”... Ou que aspirasse cola ou o famoso “cheirinho da Loló”, uma mistura de cola de sapateiro e gasolina. Aliás, naquela época, a cola de sapateiro era feita à base de peixe ou osso de boi. Era absolutamente orgânica.
A avó de um dos componentes da Turma da Baronesa, uma negra neta de escravos, preparava pratos deliciosos e chamavas quem estivesse por ali para comer. Bastava que ela batesse com a colher de pau na tampa do caldeirão que qualquer desavença entre as turmas acabava e todos corríamos para o amplo quintal de Dona Ana para saborear um munguzá ou um vatapá. Às vezes, era uma galinhada, outras uma galinha ao molho pardo ou mesmo um cozidão... Uma vez por mês, sempre depois de alguns dias de chuva, ela fazia pernas de rã à milanesa. Cabia a nós, os moleques, caçar essas rãs, o que fazíamos à noite, na várzea do Tietê, perto de onde é a Ponte do Limão, na Marginal. Não havia o que temer. Só uma eventual serpente que, espertos, sabíamos bem como evitar.

Meu filho não consegue entender (e acho que nem acreditar) como poderíamos ter tanta liberdade. “Você teve uma vida”, costuma dizer, sem esconder umas ponta bem grande de inveja.


E é verdade, infelizmente. Nós, que fomos moleques durante as décadas de 1950 e 1960, vivemos muito mais do que vocês, moleque que foram no final do século XX e início do XXI.


Nós não tínhamos televisão (na verdade, eu tinha desde 1954, era em preto-e-branco, não havia programas como hoje e, além disso, havia uma disciplina verdadeiramente nazista por parte de meus pais e de nossa governante, a Cilka, que nos deixavas assistir apenas a Sessão Zás-Trás, às 18hs e um outro programinha de desenhos animados até às 20hs, quando passava a propaganda da Parahyba, anunciando seus cobertores e dizendo descaradamente “já é hora de dormir”...


Era a hora de recolher, de ir para a cama sem a menor chance de contestação.


Não havia vídeo-games e muito menos a Internet. Quando tínhamos de fazer uma pesquisa mais aprofundada para um trabalho de escola, éramos obrigados a recorrer à Biblioteca Municipal e a fazer a pesquisa realmente. Bem diferente de hoje em dia, com a Internet, o Google e o processo ^C e ^V.


Líamos mais, estudávamos mais, tínhamos mais atividades extra-curriculares como a Cultura Inglesa, a Aliança Francesa, aulas de piano, de judô, de caratê... Certamente não dispúnhamos de tanta informação como as crianças de hoje. Mas a informação que chegava até nós era aquela de que precisaríamos, era muito menor a possibilidade de acesso a informação indesejável ou perniciosa. Sem contar que o patrulhamento sobre esse tema, por parte de nossos pais e/ou responsáveis era muito mais fácil e maior. Assim, por exemplo, na biblioteca de casa havia um “setor de livros proibidos”, as crianças não podiam pegar. Entre eles, estava “Urupês”, de Monteiro Lobato. Era “muito pesado”, segundo minha mãe – que era psicóloga, professoras de filosofia e advogada, portanto, nenhuma ignorante.


“Você foi um privilegiado”, diz meu caçula, “seu pai era rico, pode lhe dar muita coisa”.


De fato, ele tem razão, mas só em parte. Meu pai, de fato, era no mínimo, bem “remediado”. Era médico em Taubaté, competente e famoso, possuía uma clientela de fazer inveja a todos os outros. De fato, ele pode dar a mim uma educação primorosa num dos melhores colégios de São Paulo e, em momento algum deixei de ter as coisas materiais que desejasse. Mas eu tinha de fazer por merecê-las – inclusive a Lambretta que ganhei aos 15 anos de idade, depois que fui primeiro da classe por três meses seguidos, abril, maio e junho de 1961. Creio que hoje em dia, os psicopedagogos seriam completamente contrários a esse esquema de premiações. Mas posso garantir que, comigo, funcionou. Nunca sofri qualquer acidente pilotando a minha Lambretta pelas ruas de Taubaté, jamais provoquei qualquer tipo de situação desagradável com ela. E nem mesmo os pais das meninas que eu levava na garupa fizeram qualquer objeção ou tiveram motivo para queixas.


Eu era um santinho de altar? Não, não era. Fui traquinas como qualquer moleque, aprontei das minhas, mas em tempo algum fiz coisas que pudessem prejudicar seriamente quem quer que fosse. Chupar limão na frente de uma banda de instrumentos de sopro acaba com a execução das músicas, mas não causa dor em ninguém. Abrir, na feira, as gaiolas onde estavam presos os passarinhos caçados na véspera para serem vendidos, não pode ser considerado como má-ação.


Atualmente, a maior preocupação dos pais é a possibilidade de suas crianças terem acesso a sites indevidos na Internet. Aliás, preocupação bem fundamentada.


Também o medo da violência dentro das próprias escolas, veja-se o que ocorreu no Realengo, RJ. E a violência nas ruas. Não se vê mais crianças brincando nas ruas. Elas estão dentro de casa e a opção que têm são os vídeo-games e a Internet. Ou a TV a cabo, em que os canais adultos estão bloqueados pelos pais. Nada menos que 80% das crianças (segundo uma pesquisa de uma TV a cabo), está dentro de casa e diante de uma tela, seja de computador, seja de TV.


Mas os filmes que tratam de violência e estupros estão em todos os canais e as crianças acabam assistindo-os. E as notícias sobre a violência urbana estão à disposição de quem quiser nos jornais da Internet.


Assim, Georges, entendo a sua revolta. De fato, minha infância e adolescência foi pior do que eu tive. Por outro lado, á bem verdade que procurei compensar essa diferença dando a você muito mais atenção do que me deu meu pai. E ao vê-lo hoje, com 31 anos de idade, brincando com sua filhinha de cinco, imagino que tipo de infância e adolescência essas menina terá com a evolução tecnológica da atualidade. E rio sozinho ao pensar n o que você vai dizer a ela quando contar de sua época. Ou quando lhe repetir as minhas histórias...


Com certeza ela vai imaginar que seu avô viveu num outro planeta, pois aqui na Terra, essas coisas jamais puderam acontecer. Imagine-se uma vida sem Internet!



por ryoki às 21h08
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O legado eterno

O que dizer, Antônio? Simplesmente, nada! Não é possível, nesta pobre linguagem que nos foi legada como meio de comunicação, tecer qualquer comentário ao seu maravilhoso texto. Aliás, eu sempre soube que esse dia haveria de chegar. O momento em que, após ler o que você escreveu, que daria mudo, estupefato, os pensamentos perdidos em recordações, em lembranças de uma infância que até então julgava apenas minha e que, de repente, via invadida, compartilhada com outra pessoa. Incrivelmente 31 anos mais jovem.


Não fui somente eu a crescer com uma árvore plantada do dia do nascimento. No meu caso, também uma goiabeira. Certo que a cidade era outra, mas a essência da coisa foi a mesma e quem a plantou também era uma avó e eu passei, como você, boa parte da infância pendurado em seus galhos, comendo goiabinhas ainda verdolengas – as maduras, invariavelmente estavam cheias de bichos – e observando um ninho de sanhaço sem jamais apontar o dedo para os filhotes, pois segundo a Juta (minha avó), se eu fizesse isso as formigas descobririam onde estavam os passarinhos e viriam comê-los vivos.

Eu não tive com quem dividir a minha goiabeira, naquela época. Não tinha irmãos ou primos que viessem trepar em seus galhos junto comigo e minha avó – a grande companheira de traquinagens – já se queixava de dores reumáticas que a impossibilitavam de aventuras mais ousadas.

Morávamos numa chácara – ainda existiam coisas assim! – quase no centro de Taubaté, que ocupava todo um quarteirão. Minha avó, fanática por plantas e tudo que se relacionasse c om terra, desde plantas ornamentais até hortaliças e árvores frutíferas, passando naturalmente por galinhas, patos e até porquinhos, cuidava de tudo pessoalmente. Lembro-me de minha mãe lhe dizendo que ela procurava sarna para se coçar, tanto trabalho ela tinha com sua horta, com o jardim, com o galinheiro e o chiqueiro onde sempre havia pelo menos uma porca parida, um cachaço e dois ou três capados cevando. Juta tinha um empregado, o Sebastião, apenas para fazer o trabalho mais pesado. O resto ficava por conta dela mesma. E era muita coisa: tirar as ervas daninhas da horta e do jardim, cuidar das sementeiras, plantar as mudinhas, desbastá-las, amarrar os tomateiros, cuidar da cobertura de material orgânico, dar milho às galinhas, colher os ovos, cuidar para que algumas pudessem chocar seus pintainhos, dar comida aos porcos, ordenhar a cabra... Lembro-me até hoje do dia em que ela queria que meu pai trouxesse da fazenda uma vaca com seu bezerro para que ela pudesse me dar leite todas as manhãs. Essa sua ideia despertou uma discussão homérica, pois minha mãe não permitiu em hipótese alguma. Vencida, minha avó teve de se contentar com uma cabra leiteira e, assim, fui criado a leite de cabra. Muito bom por sinal.

A festa ficava sempre para as horas de colheita, quando ao almoço, Juta punha na mesa o prataço de salada, as abobrinhas recheadas, a couve mineira picada tão fininho que parecia cabelo verde, as sobremesas feitas com frutas de nosso próprio plantio e queijo de cabra.
Inegavelmente, paladares que só encontramos na saudade...

Diferentemente de sua avó Loli, a minha, Juta, não se incomodava muito com flores. Ela queria mais as coisas que pudessem ser postas à mesa.

Nem por causa disso, o jardim era descuidado, havia canteiros de rosas, de marias-sem-vergonha, de cravos, de agapantos, de palmas... Lembro-me de uma arvorezinha que dava flores amarelas e que tinham um nome engraçado: fedegosas.

Juta não me ensinou subversão – ela era extremamente “caxias" – mas contava-me sobre seu tempo de menina em Portugal, depois na Amazônia, no Rio de Janeiro e, por fim, em São Paulo. Sempre estranhei o fato de ela se calar quando estava me contando essas histórias, à chegada de minha mãe. Principalmente quando o assunto era a Amazônia. Muito tempo depois, vim a descobrir o motivo dessas suas bruscas interrupções da narrativas: quando jovem, Juta era bem “da pá virada” e montara, em Manaus, uma “casa de facilidades”, chamando a irmã, Celeste, para vir administrá-la. E minha mãe achava – talvez até com razão – que essas coisas não eram para “menino escutar”...

Não sei que fim levou a minha goiabeira. Hoje, onde era a nossa chácara, há uma escola, um supermercado e uma porção de casas pequenas. O quarteirão murado que a constituía foi picado, mutilado, as árvores em sua imensa maioria derrubadas para dar lugar a áreas cimentadas e a ocupantes barulhentos e preocupados apenas com o “habitar”, sem o menor tempo para o “usufruir”.

Não tive tempo e nem meios para dar à minha primeira neta uma árvore, uma goiabeira. Mas enterrei seu umbigo numa fazendinha em Gonçalves, no Sul de Minas Gerais, para que ela permanecesse ligada à terra e que, um dia, pudesse sentir o mesmo prazer que eu e sua avó sentimos com o cheiro de um curral, de um silo de café. Ah, o cheiro do café em grão, recém-ensacado e armazenado...!

A neta, Caroline, há de se lembrar, quando for adulta, das caminhadas que fez em companhia da avó, Nicole, pelas trilhas da Serra da Mantiqueira, dos morangos silvestres, das goiabas no meio do mato, do mugido das vacas e do leite que ela tomava todos os dias, recém-tirado da vaca, ainda morno e gordo... Leite de verdade, sem químicas, sem antibióticos. Ela há de recordar com saudade das comidas preparadas no fogão a lenha, das lingüiças penduradas no varal sobre esse fogão, com gosto de carne de porco autêntica e aquele saborzinho de fumaça que só a defumação caseira consegue dar.

E, assim, apesar de a Caroline não ter ganhado uma goiabeira ao nascer, ela terá do que lembrar. E quando o seu neto vier ao mundo e tiver tamanho para conversar com ela através da escrita – como tenho feito com você – os dois terão o que se dizer, terão recordações para partilhar. E nós, os avós, teremos a deliciosa sensação do dever cumprido, de termos legado à nossa descendência alguma coisa mais do que simplesmente matéria: a memória. 

Ryoki em referência ao texto "De cima da goiabeira", de Antonio Prata - Digestivo Cultural

 



por ryoki às 21h06
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Agnóstico, graças a Deus!


José Carlos Garcia, possivelmente o mais sábio psicólogo e psicoterapeuta da Paulicéia Desvairada, garante ser agnóstico. Por isso ele é sábio. Também o é pelo fato de ser casado com a Cláudia, bela por dentro e por fora, capaz de olhar meigamente para o marido e aceitar com um sorriso quando ele fala de seus conceitos sobre toda e qualquer religião. Tenho a honra de poder dizer que Garcia é meu amigo. Amigo-irmão, pois temos o mesmo prenome e, para agravar, o mesmo tufo de pelos no punho, mais precisamente, na face ventro-lateral do terço distal dos antebraços. E esta á apenas uma das características que temos em comum. Uma outra é o gosto por vinhos, distilados e outras delícias etílicas. Digo a ele que tudo isso tem de ser resquícios de uma ligação até mesmo sanguínea de vidas anteriores. E ele ri, pois agnóstico que é, não pode acreditar nessas coisas.

Mas eu acredito. Na verdade, nem sei em que acredito, uma vez que ultimamente tenho tendido bastante para o agnosticismo. Tenho posto em sérias dúvidas a religião católica, com os digníssimos representantes de Deus envolvidos com crimes inacreditáveis, crimes estes que vão desde pedofilia até lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. Escrevi um romance recontando uma história que me foi transmitida por um ex-padre (Também se Lava com Água Benta, http://www.ryokiproducoes.com.br/tambemselavaaguabenta.html ).

Da mesma maneira, não é possível acreditar e confiar nos evangélicos, cujos pastores e bispos se tornam milionários com os dízimos... E quanto aos pais-de-santo, mães-de-santo e outros, estão muito mais perto do charlatanismo do que de qualquer outra coisa. Andei por tudo isso, incluindo centros espíritas kardecistas, em busca de uma fé. Não encontrei. Um padre meu amigo, não aquele que me contou toda a história, disse-me que não há fé se não existir a dúvida. Acho um tanto quanto paradoxal. Acredita-se incondicionalmente (e então há fé), ou não se acredita e ponto final.

E eu estou não acreditando em nada.

Contudo, essa descrença não me impede de dizer a Deus, ao tentar adormecer, que faça com que os meus números da loteria sejam sorteados. E de negociar com Ele, garantindo que, se eu ganhar, vou destinar uma verba para a caridade...

Da mesma maneira, minha descrença e agnosticismo não me impediram de, no dia 8 de dezembro, desesperado de dor na perna direita (consequência de uma neuropatia diabética que me aniquilou ambas as pernas) pedir a Nossa Senhora Aparecida que me aliviasse essa dor. Por força de uma influência psicológica ou por conta realmente de uma interferência metafísica, a dor diminuiu sensivelmente a partir da manhã do dia 9 de dezembro... E eu agradeci sinceramente à nossa Padroeira. Com fé, sem deixar de lado meus conceitos garcianos de agnosticismo.

Então, começo a imaginar que Deus existe, sim. Cercado por todos os santos do panteão católico, hinduísta, umbandista, etc. Porém, Ele existe numa dimensão diferente, num universo diferente, mas capaz de interferir e de interagir com este nosso universo, nesta nossa dimensão. Na verdade, Deus não tem representantes nesta nossa dimensão, Padres, bispos católicos, bispos evangélicos, pastores, gurus, pais e mães de santo e tudo o mais que se dizem representar Deus aqui na Terra, não passam de profissionais que encontraram uma maneira de sobreviver (e bem) à custa da fé do ser humano, à custa do vício do povo em ter de acreditar em alguma coisa que reflita de uma maneira qualquer, a vida eterna. Mao tinha razão: a religião é o ópio do povo.

Não há vida eterna. A morte é, definitivamente, o fim de tudo.
Porém, de cima de uma porção de teorias e filosofias agnósticas, eu prefiro acreditar que a energia de que nós todos somos dotados passa para essa dimensão diferente, uma vez que Lavoisier sempre esteve certo: Nada se cria, tudo se transforma.

Assim, nossa energia “vai” para essa outra dimensão, onde será reciclada e retornará, para uma “vida”, onde quer que ela venha a acontecer.

E o sábio Garcia que se dane!
Respeito-o, admiro-o, sigo suas teorias.

Mas não canso de dizer: Sim, sou Agnóstico, graças a Deus!

 



por ryoki às 19h42
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Autoficcão

Uma noite, durante um jantar, Gyorgy Troyko, um amigo muito querido desde há mais de meio século, disse-me que eu deveria escrever minha autobiografia. “Mas sem mentiras, a verdade pura, sem esconder absolutamente nada.”

Não posso, querido amigo. Primeiro, porque ainda não tenho intenção de começar a esperar a morte e escrever a autobiografia á prenúncio do encontro com a Magra... Segundo, porque ainda pretendo realizar algumas coisas e, ao fazer um livro sobre minha vida, ao chegar ao fim, estaria sacramentando também um fim de ideais e de sonhos. Ainda é cedo para isso, penso e espero eu.

Depois, pedir a um romancista que não escreva mentiras é o mesmo que lhe pedir que não escrever uma linha sequer.  Minha obrigação como escritor é fazer com que o leitor, no mínimo, compactue com as mentiras postas nas páginas do livro.  Além do mais, que graça teria um romance que não contasse algumas boas mentiras?

Está certo... Haverá quem diga que uma autobiografia não é um romance. Porém, sem alguma ficção, que graça ela teria? Seria um texto plano, retilíneo, sem atrativos.

Esse jantar foi há quase quatro anos. E, na verdade, o Troyko estava certo, pelo menos em parte. Hoje, a tendência dos grandes romancistas, como por exemplo, Coetzee, é o que os críticos chamam de autoficção. Ou seja, contar uma história misturando-a com sua autobiografia. Em resumo, o bom amigo Troyko estava antevendo uma tendência quatro anos atrás.

Começo a pensar seriamente nisso, apesar de já ter posto, em alguns de meus romances, alguma coisa sobre minha vida.

De mais a mais, quanto a temer a visita da Magra, já começo a me conformar. Este ano que passou, 2010, foi muitíssimo duro e pesado para mim. Comecei esse ano andando normalmente e termino-o de muletas e cadeira de rodas. Também a antiga disposição para escrever arrefeceu e muito, mesmo porque não consigo ficar nem mesmo meia hora diante do computador. As dores da polineuropatia diabética não o permitem.

Quem sabe se tentar romancear minha vida, criar um  personagem que seja meu alter ego, não me entusiasme novamente?

Claro que há episódios que só poderiam ser vividos por esse personagem misto de mim e de um super-herói. Em outros, eu teria de esconder certas características que tornariam as pessoas – outros personagens – facilmente reconhecíveis e isso será totalmente desaconselhável.

Porém, refletindo sobre tudo isso nas minhas tristes horas de dor e insônia, chego à conclusão que sim, que vale a pena arriscar. E que tenho eu a perder? Que mais tenho a realizar nesta vida, preso que estou às minhas precárias condições físicas?

Hoje pela manhã, neste início de 2011 que, espero, seja melhor, tomei a decisão: vou escrever essa autobiografia.

Mas não espere o Troyko que ela venha a ser como me aconselhou, sem mentiras. Terá de havê-las. Mas prometo que vou colocá-las de uma forma tal que o leitor não consiga perceber que são mentiras. Talvez esse seja o melhor livro que jamais escrevi. Talvez seja o pior. Não tem importância. O que interessa é que nele hei de abrir alma. Quem me conhece saberá distinguir pelo menos alguma coisa do que é verdade e do que não é. 

Mas será o livro de minha vida.

A despeito de a Magra já estar começando a rondar a minha casa...

 

 



por ryoki às 02h40
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As Marcas do Tempo

Ouço José T., ex-colega de Santo Américo e amigo desde a infância, perguntar-me: “Lembra-se da Cristina, filha da Adelaide?” Sim, eu me lembro, e muito bem, por sinal. Tínhamos 15 anos de idade e estávamos numa festa do Colégio Madre Alix, em São Paulo. Cristina era uma menina, também de 15 anos, que estava acompanhada por sua mãe e nós, moleques, não sabíamos dizer qual das duas era mais bela.

Da mesma forma, eu me lembro da Candinha, da Cida, da Regina, da Marli e de tantas outras...! Eram as meninas por quem nossos corações de adolescentes batia mais rápido e que povoavam nossos sonhos.

“Encontrei-me com a Silvana “ conta-me Peter, “A irmã mais nova da Roberta, lembra-se delas?” – pergunta-me. Sim, claro, como poderia esquecer-me da Silvana, afinal, essa chegou a ser, por três ou quatro meses, minha namorada e eu já estava na Faculdade. Além disso, ela era colega de classe de minha irmã, estava quase permanentemente em casa... “Pois é...” prossegue Peter, “Ela está um caco. Parece uma velha decrépita!”. Ele podia muito bem deixar de dizer essas última frase. Podia deixar que eu visse a Silvana, em meus pensamentos, como ela era nos anos sessenta, loira, alegre, bela, bailarina (ela era do Corpo de Ballet do Municipal de São Paulo), sempre disposta a tudo.

Bobbynho, outro ex-colega, surge com a ideia: “Vamos organizar um encontro de nossas ex...”

Aviso de imediato que não comparecerei.

Não quero reencontrar nenhuma delas. Quero poder continuar a sonhar com elas, a lembrar delas exatamente como eram naqueles idos tempos. Assusta-me pensar que elas, assim como nós, estão com mais de sessenta anos, terão suas fisionomias marcadas não apenas pela passagem do tempo, essa dimensão inexorável, mas também pelos dissabores e desencontros da vida. Elas também terão envelhecido, estarão completamente diferentes externamente e, com grande probabilidade, também internamente. Aliás, com certeza, eu não reconhecia nenhuma se cruzasse com elas na rua. Prova disso ocorreu cinco anos atrás, na loja de minha mulher, quando lá estava fazendo compras uma respeitável senhora que cumprimentei. Só depois, ao acertar as contas da féria do dia, vi o cheque que ela dera. Era a Cristina, irmã de um amigo de infância, em Taubaté, e que, no início da década de sessenta, chegou a balançar fortemente meu inexperiente coração de adolescente. E elas, por sua vez, também não me reconheceu.

É completamente diferente com aquela que se tornou minha companheira de vida, a Nicole.  Esta , para os meus olhos, não mudou absolutamente nada. Continua a mesma morena de olhos verdes que eu persegui desde os dois anos de idade, desde que nossas avós ficavam tricotando e conversando em francês num banco do Jardim Trianon enquanto nós dois andávamos de velocípede. Ela tinha um velocípede igualzinho ao meu, só que vermelho, enquanto o meu era azul. E eu forçava-a a correr e a fazer curvas fechadas só para vê-la cair. “Sua calcinha é cor-de-rosa!” gritava eu, rindo quando ela se esborrachava de pernas para o ar. Voltei a encontrá-la – de longe – em Guarujá, em uma ou duas férias de verão, na Rua México. Havia uma construção ao lado da casa onde ela estava e eu mais um bando de outros moleques ficávamos andando de bicicleta pelos andaimes. Quando lembro disso, hoje, chego a sentir um frio na barriga... Que irresponsabilidade! Poderíamos ter despencado fatalmente!  Mas éramos moleques, não tínhamos a menor noção do perigo. E ela confessou-me, mais tarde, que chegava a ficar torcendo para que caíssemos. Principalmente eu, que era o mais maluco da turminha. Depois, então já com dezesseis anos de idade, voltei a vê-la tomando chá no Clube Inglês, em São Paulo, acompanhada de sua avó. Lembro que ela tinha, naquela tarde, a fisionomia preocupada e triste. Não fosse eu tão tímido, teria ido perguntar-lhe o que a estava afligindo. Dois ou três anos mais tarde, encontrei-a comprando cigarros na padaria do Guarujá. Nessa ocasião, já mais treinado nas coisas da vida e menos tímido, decidi segui-la. Ela estava num Karmann Ghia e eu também. Só que eu tinha um motor Porsche 2.0 e estava certo que ela jamais conseguiria fugir de mim. Porém, o carro dela também era equipado com o mesmo motor que o meu e eu não consegui  ultrapassá-la e obrigá-la a para como planejava. Decepcionado, vi-a entrar no Hotel Jequiti... Daquele dia até julho de 1971, não a vi mais e nem notícias dela eu tive. Então, numa operação de transporte de soldados para o 4º BOC, em Guarujá – eu era piloto da FAB, na ocasião e estava encarregado de levar de helicóptero, da Base Aérea até o  4º BOC quase trinta soldados, o que implicava em mais de três vôos – eu a vi tomando sol na areia da praia de Guaiúba. Reconheci-a de imediato. Ela acenou alegremente e é claro que não acenou para mim, mas sim para o helicóptero, pois teria sido impossível que me reconhecesse com o visor escuro do capacete abaixado. Retribuí o aceno e, na volta, já com a aeronave vazia, fiz um rasante sobre ela e dei duas voltas em cima dela, mostrando claramente que era para ela que fazia aquelas manobras. E planejei meu ataque... Naquela época, nosso comandante tinha feito um acordo com um hotel de Ilhabela, o Hotel Mercedes, segundo o qual nós, oficiais da Base Aérea, teríamos hospedagem gratuita no fim-de-semana, com direito a acompanhante, desde que fôssemos de helicóptero  e permanecêssemos com a aeronave pousada no heliponto do hotel.  Esse acordo era de total interesse para nosso comandante, que na época tinha um “cacho” com uma atriz global e, pelo menos uma vez por mês ia passar não só um fim-de-semana, mas uma semana quase inteira na Ilha. Assim, como era uma sexta-feira e eu sabia que o comandante não poderia se ausentar da Base pelos próximos dez dias, o Jet Ranger estaria à minha disposição. Terminada a missão de transporte eu o pegaria e pousaria diante da mulher objeto de meus sonhos desde a infância e eu duvidava que ela não aceitasse o convite... Porém, ao pousar na Base, antes mesmo de falar com o comandante sobre meus planos, este mandou um sargento me chamar. “Você terá de ir a Brasília agora”, disse-me ele. ”o Ministro Andreazza, que está em Santos, foi chamado pelo Presidente com urgência e você é o único piloto capacitado a levar o HS até lá”. Não havia o que contestar e, no máximo eu pude maldizer a hora em que decidi me capacitar a pilotar o HS no Esquadrão de Transporte Aéreo... Meus planos foram por água abaixo e só voltei a encontrá-la em janeiro de 1978. Contudo, dessa vez, eu estava decidido a não mais deixá-la escapar e, apesar de ambos estarmos casados, cada um com sua vida, deixamos tudo para trás e começamos uma vida nova, cheia de amor, vida esta que persiste até hoje.

Os anos passaram, eu sei. Mas para meus olhos, ela continua a mesma, não se deixou marcar pelo tempo.

Eu, porém, mudei. Não existe mais aquele Ryoki cheio de vida, alegre, disposto a tudo, cheio de energia. Hoje estou preso a duas muletas e, para andar na rua necessito de uma cadeira de rodas. Entristeci, eu sei. O brilho que havia está opaco, a disposição sumiu...

Mas ainda estou vivo e, enquanto houver um resquício de vida em meu ser, enquanto meu coração ainda bater, haverá de bater por ela, a minha Nicole, a menininha de calcinha cor-de-rosa que eu encontrava nas manhãs de sol no Jardim Trianon. 



por ryoki às 02h39
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