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Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 16h37
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Vaidoso, sim. E por que não?

Criaram-me um blog... Meu filho deu-me esse presente – não sei ainda definir se é ou não um presente de grego – e impôs-me a condição de mantê-lo ativo. Ou seja, um abacaxi a mais para eu descascar entre os muitos que já tenho.
E quando ele me disse qual é a finalidade de um blog, assustou-me.
Tenho visto alguns blogs, todos de gente famosa, intelectuais de renome – vejam bem, não me atraíram aqueles cuja finalidade é apenas marcar presença na web – enfim, pessoas com motivos para terem um blog.
E eu? Por que eu? A troco de quê teria um blog?
Porém, sou obrigado a confessar que me senti envaidecido. Serei eu merecedor de tal honraria? O argumento de meu filho preocupou-me ainda mais: um blog, desde que se cuide dele, pode servir para que outras pessoas valorizem o seu trabalho...
Pode ser. Valorizar o trabalho intelectual é até relativamente fácil. O problema é valorá-lo. Isto, neste país, não é nada fácil. Aliás, tem-se a impressão que a valoração de um trabalho é inversamente proporcional ao conteúdo intelectual que esse trabalho possa ter: quanto maior, menor é a sua valoração.
E vamos passando fome, nós outros, que temos dependido da produção intelectual para sobreviver...
Mas, como disse, fiquei envaidecido. Não é muito de meu feitio confessar esse fato, mas enfim... Detesto imaginar que terceiros possam pensar que eu sou um vaidoso intelectual. Segundo Matias Aires em seu “Reflexões sobre a vaidade dos homens”, a pior e mais perniciosa das vaidades é aquela que vem da hipótese de que se sabe mais do que os outros, mesmo porque nada existe que mais agrade ao ser humano do que a idéia de ser superior intelectualmente aos outros. Isto praticamente garante a eternidade: estaremos na memória daqueles que ficam depois de termos ido embora. O objetivo do vaidoso intelectual é ser eternamente lembrado, é ser assunto de conversas e de debates. No fundo, a vaidade suplanta a vida, pois – pensa-se – ela leva à eternidade.
Para ser sincero, creio que eu seria mais adepto da teoria da douta ignorância de Sócrates: pode ser que seja a pessoa mais sábia do mundo justamente por saber que nada sei, ao mesmo tempo em que as demais pessoas simplesmente não sabem que nada sabem.
Mas tudo isso, no frigir dos ovos, não passa de manifestações – ainda que subliminares para o possuidor, embora escarradas para qualquer uma das outras pessoas – de uma imensa... vaidade.
Diga-se de passagem que a negação da vaidade é exatamente uma característica do vaidoso.
Basta ver Fernando Henrique Cardoso quando disse, numa certa entrevista, que se considerava mais inteligente do que vaidoso. À sombra de Matias Aires, com essa frase, FHC apenas provou ser mais vaidoso do que inteligente... Pegando o outro lado da moeda – quis dizer, indo para o lado oposto, falando do antagonista – o nosso atual presidente, o Lula, transpira vaidade por todos os poros: parece-me que seus assessores não querem ver que a humildade costuma nascer da vaidade; ou vice-versa, a vaidade advém de uma humildade que, de um momento para o outro começa a se tornar incômoda.
Mas não estamos aqui para falar da vaidade alheia... Seria, o cúmulo da vaidade, não é mesmo? Seria negar a verdade citada tanto por Matias Aires como por David Hume: o ser humano conhece e reconhece muito bem a vaidade dos outros, mas recusa-se a enxergar a sua própria.
Eu enxergo. E envaideço-me disso. Sou humano, sou vaidoso. Hei de morrer assim e só peço aos Céus que não me tirem – por qualquer razão – o direito de assim pensar e assim agir.
Talvez não haja escapatória: o ser humano tem na vaidade uma de suas características, e ponto final. Não vamos querer disfarçar e negar, a vaidade é fundamental.
Ao homem é essencial ter vaidade. Se não a tiver, acaba por desprezar tudo, até a si mesmo. O homem sem vaidade não tem motivo algum para pensar em sua reputação, não ambiciona ser respeitado, não vê razão em ser caridoso – a caridade ser-lhe-ia uma virtude mercenária – confundiria lealdade com submissão...
Assim, temos de ser vaidosos. Não podemos deixar de lado a vaidade, pois ela ajuda a administrar nossos vícios. E não podemos esquecer que é muito fácil, não há necessidade de tempo ou de professor para se chegar ao vício.
Por isso mesmo é que seria aconselhável aos Aspones do Planalto dizerem ao nosso presidente que ele tem de admitir – e saber administrar, e administrar pelo menos isso – a própria vaidade.
O homem sem vaidade não tem por que zelar pela própria honra.
O não saber, por sua vez, não é virtude. E envaidecer-se da própria ignorância – ou da condição de ignorante – é simplesmente paradoxal. Vaidade sente-se por algo que se é, não por aquilo que não se é. Explicando: não faz sentido ter vaidade do que não se sabe.
Principalmente quando se tem a obrigação de saber.
De minha parte, insisto: não nego a minha vaidade. Aqueles que se dedicam a uma atividade intelectual – e para aqueles que não acreditam, ser escritor é exercer uma atividade intelectual – são sempre motivados pela vaidade, uma vez que os letrados não estudam para saber, mas sim para que os outros saibam que eles sabem.



Escrito por ryoki às 15h39
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Categoria: Espaço do Leitor
Escrito por ryoki às 18h56
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A Beleza Feminina

   Escuto, indiscreto sem querer, a conversa do casalzinho que está à mesa ao lado da minha, num restaurante qualquer.
   Muito séria, a mocinha pergunta:
   - O que é que você considera "uma mulher bonita"?
   Galante e até mesmo um pouco anacrônico, o rapaz responde:
   - Uma mulher como você...
   Não posso deixar de considerá-lo cavalheiro, mas da mesma maneira, eu o acho um pouco pobre no que diz respeito à definição.
   Sorrio, com tristeza, de mim mesmo.
   Se sou capaz de me julgar capacitado à crítica, essa capacidade se deve apenas à idade... O que tenho, no fundo, não passa daquele ciúme nostálgico que bem pode ser explicado como "inveja da juventude"...
   A mocinha, mais objetiva e bastante exigente, não se contenta com aquela resposta e reclama:
   - Você não disse nada. Não respondeu à minha pergunta.
   Muito mais esperto do que eu poderia imaginar, o rapaz lhe dá um beijinho, outro e mais outro, atacando imediatamente em seguida seu prato, deixando o assunto tombar por terra.
   Está decidido a não responder, a não se comprometer...
   Pois bem, cara mocinha, minha bela menina-mulher... Já que seu companheiro não satisfez sua curiosidade, vou procurar fazê-lo.
   Em primeiro lugar, não pense você que a presença destes cabelos brancos e destas rugas que maldosamente já começam a me circundar os olhos e a tornar mais duro o meu sorriso, sejam
motivos suficientes para você me classificar de "velho". Posso ser mais idoso que você e seu companheiro juntos mas, ainda falta muito para que eu me considere velho e ultrapassado.
   No fundo, esses anos todos que já vivi, no mínimo serviram para que certos conceitos meus sejam um bocado diferentes da média, sejam talvez muito subjetivos e até difíceis de explicar,
mas pode acreditar, minha menina bonita, são conceitos trabalhados, vivenciados e muito analisados...
   Conceitos que, pelo menos, me satisfazem e que, no que diz respeito à beleza feminina, pode ser que a satisfaçam também.
   Certa vez, ouvi um desses filósofos de bar dizer que o belo na mulher é exatamente aquilo que se contrapõe ao feio do homem.
   Talvez seja esta uma boa maneira de entender como e por que mulheres tão bonitas se casam com homens tão feios... e vice-versa.
   Mas na minha opinião, são balelas, ginásticas mentais e palavrório inútil.
   Uma mulher é bela porque...
   É simplesmente bela.
   Ao lado da parte física, a matéria harmoniosamente constituída, as linhas e curvas esteticamente bem equilibradas, há algo mais, há qualquer coisa que faz com que o homem que a vê sinta, de repente, um enlevo todo especial e a deseje...
   Sim, ele pode desejá-la e de muitas maneiras.
Talvez até mesmo como eu a estou desejando agora, sem nem sequer pensar em qualquer coisa que seja diferente de um platonismo até fora de moda.
   É esse algo mais, essa aura que circunda a mulher que é bela, que é capaz de fazer com que uma criança - esse serzinho que ainda não tem maldade em sua alma, que não tem malícia alguma em seu coração e não possui qualquer idéia carnal em sua mente -a veja e diga, com um sorriso encabulado:
   - Você é bonita...
   Seria, essa aura, uma expressão ectoplásmica da bondade?
   Não sei...
   Não sei definir muito bem o que possa ser a bondade feminina.
   Seria a capacidade de se entregar ao amor, de se dedicar ao homem que ama, de se desdobrar como diz Raimundo Corrêa, "desfiando fibra por fibra o coração" em relação a seus
filhos? Ou seria a bondade apenas o fato de ser cordata, dócil, simpática e sempre pronta a servir?
   Há mulheres belas que não são assim...
   Têm sua vida própria, seu brilho próprio, independem de todo e qualquer homem, não querem saber de filhos - estes atrapalhariam seus objetivos - e nem por isso deixam de ser belas, deixam de ser desejadas...
   Mas...
   Olhando-me interiormente, avaliando a experiência que estes cabelos brancos provam, penso se estas mulheres, belas, belíssimas, maravilhosas e atraentes, mulheres por quem um homem seria capaz de cometer as maiores loucuras, penso se elas continuarão merecedoras de toda essa devoção... dentro de trinta anos.
Sim.
   Dentro de trinta anos, quando a chamada "idade madura" chegar, com o grisalho nos cabelos, as juntas já um tanto rígidas, a disposição para tudo, bem arrefecida, a vida marcada
por desencontros e desencantos, por desilusões e frustrações, será que essas mulheres continuarão belas?
   Ou será que em seus rostos, já então vincados, não estará mais presente do que qualquer outra coisa, o amargor decorrente de tudo o que foi vivido, de tudo quanto foi passado, sofrido e,
sobretudo, de todos os momentos perdidos na perseguição de um ideal, de uma meta que, fundamentalmente, não era a sua?
   Veja, minha bela menina-mulher...
   Sim, pois você é bela, pelo menos ainda...
   Continue assim como a vejo, olhando com carinho para esse bobalhão que está à sua frente... Continue a ser como é, a pensar como uma menina e a agir como uma mulher.
   Talvez seja esse o segredo...
   Tenha suas metas, persiga-as. Alcance-as. Realize seus sonhos materiais, profissionais, financeiros. Conquiste seu lugar na cruel sociedade, seja alguém, vença!
   Mas, para que continue a ser bela, para que até mesmo esse apolônico imbecil que a tem hoje, continue a seus pés, é preciso apenas uma coisa: é preciso que você jamais deixe de ser,
simplesmente, mulher...



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 18h40
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O Livro como Fonte de Renda

Apesar do Brasil ser um país onde se lê aproximadamente 0,7 livros/habitante/ano, o mercado livreiro e editorial tem se mostrado uma fonte de renda das mais promissoras. De qualquer maneira, é de se esperar que uma nação que se dá o luxo de informatizar praticamente a totalidade de suas atividades burocráticas e empresariais, não continue a trilhar, culturalmente, o mesmo caminho - e no mesmo ritmo - que a Somália, Ruanda e Nigéria. O povo se ilustra cada vez mais, dia a dia, vê e sente a necessidade de expandir seus conhecimentos e sabe que, a despeito da televisão, o livro ainda é a melhor e a mais barata maneira de adquirir informações. Assim, tanto do ponto de vista editorial quanto do consumo de livros, a tendência é melhorar.

No entanto, ainda é preciso lutar contra muitos obstáculos, contra muitas artimanhas desenvolvidas pelos distribuidores e livreiros, artimanhas estas geradas por uma política econômica nacional de juros altíssimos - que no mínimo inibem os investimentos - e que, "contaminando" o pensamento dos que trabalham neste ramo, prejudicam seriamente o desenvolvimento de um mercado que, a exemplo do que ocorre nos países desenvolvidos, é um dos mais lucrativos.

A taxa de desconto cobrada por muitas distribuidoras, superando os 50% do preço de capa, deveria ser menor. Não houvesse uma porcentagem tão alta e o livro poderia chegar ao consumidor por um valor bem menor, facilitando vendas e possibilitando o acesso à cultura para um maior número de pessoas. A mentalidade colonialista que impera na maioria das editoras brasileiras - mentalidade esta provavelmente ditada por uma tendência que vem do próprio povo e que está no velho ditado "santo de casa não faz milagre" - determina a preferência editorial por autores estrangeiros, em detrimento dos patrícios que, certamente não têm menos valor que um Sheldon, um Robbins ou um Higgins. Temos brasileiros que escrevem muito bem, que possuem idéias excelentes e que poderiam se tornar grandes, desde que editados e, evidentemente, lidos. O preconceito pior parte dos livreiros - contra o qual nós temos lutado muito - de que o livro de bolso não tem aceitação por parte dos leitores, é um outro fator impeditivo de uma maior divulgação dos livros no seio do grande público. Um livro de bolso pode conter exatamente o mesmo texto que uma edição de luxo, com a vantagem de custar menos, justamente por não pensar em ostentação e apresentação luxuosa. O valor daquilo que está escrito é imutável. Ou presta ou não presta e cabe ao editor, antes do leitor, saber filtrar aquilo que irá levar às prateleiras das livrarias.

São espinhos que aqueles que desejam ingressar nesse mercado, têm de vencer. É uma luta que se deve abraçar contando como principal arma, a necessidade que o povo brasileiro vem demonstrando, de melhorar seu nível cultural para que, não apenas em reservas cambiais, de fato passe a trilhar o caminho do Primeiro Mundo. O brasileiro sabe que para se equiparar a qualquer outro povo mais desenvolvido, o requisito primordial é a cultura e, exatamente por isso, vem procurando aumentar em primeiro lugar, o seu nível de leitura.

Autores novos, talentosos, surgem a cada dia. Porém, esses gênios continuam apagados porque seus trabalhos não são divulgados, não são publicados, não são vendidos, não são lidos. São os preconceitos e os temores das editoras os principais motivos para que esses novos luminares jamais apareçam.

Há os mais ousados, os que se arriscam uma vez, levam sua obra a uma gráfica, mandam imprimir e... infelizmente, fracassam. Esse fracasso foi determinado principalmente pela falta de orientação editorial. Uma gráfica simplesmente executa o serviço gráfico que, inclusive, pode ser muitíssimo bem feito. Contudo, fazer um livro não é apenas mandar imprimir cento e tantas páginas de papel. Há que se editar o livro. Há todo um processo de revisão, desde a simples revisão datilográfica e ortográfica, até mesmo a delicada e sutil revisão literária, em que o editor apreende a idéia do autor e a retransporta para o papel, colocada em termos claros, lisos, escorreitos e de fácil entendimento.

Por isso a necessidade de uma editora. Temos visto obras de bons autores, bem escritas e com idéias excelentes, que não conseguiram "decolar", simplesmente por falta de quem as editasse convenientemente.

O custo editorial não é barato mas, as vantagens vistas no produto final são inegáveis. Uma obra que tenha o respaldo de uma editora e que não seja uma mera "produção independente", tem toda uma tecnologia e todo um know-how em sua execução, que permite a aceitação pública mais imediata.

Aceitação que vai desde a apresentação do livro, com a escolha de uma boa capa e um bom título, até a elaboração da idéia, no miolo do livro e a sua explanação ao leitor.



Categoria: Arte e Literatura
Escrito por ryoki às 18h25
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