O atraso que vem de cima ou O Regresso para a Idade Média - 2

Não posso acreditar que um homem – sim, pois não deixa de ser um homem, tanto assim que nasceu e há de morrer – como Herr Hatzinger, vivendo em pleno século XXI e com a obrigação de fazer uma aproximação da Igreja com a Modernidade, possa continuar a pensar que Darwin nada mais era do que um herege pecador e que a vida na Terra surgiu pura e simplesmente de um sopro de Deus. Assim, sem mais nada, sem a menos interferência do movimento browniano de moléculas, sem nenhuma obrigação de adaptação para a sobrevivência. Se isso fosse verdade inconteste, onde estarão os dinossauros vivos nos dias de hoje? E os mamutes? Por que eles perderam o pêlo, diminuíram as presas e alargaram as patas? Por que, enfim, transformaram-se em simples e simpáticos elefantes?

Não estaria aí uma prova da validade do evolucionismo?

E não haveria uma certa analogia do pensamento de Herr Hatzinger com o de um seu outro execrável conterrâneo, Herr Adolf, no que concerne a uma tendência de purificação, não étnica, mas sim religiosa? Por que o nosso Papa há de colocar o Deus dos Muçulmanos num plano inferior, ou seja, por que ele haveria de desdeificar Alá, se Alá é nada mais e nada menos que o nosso Deus para os muçulmanos? Teremos de todos os componentes da humanidade sermos filiados ao mesmo partido religioso? E onde está o privilégio – aliás dado pelo próprio Deus, embora não haja certidão do Céu com firma reconhecida, como bem queria o Poetinha – do livre arbítrio? Então Abdallah tem de adorar o Deus dos católicos porque aquele que lhe foi incutido desde as mais priscas eras simplesmente não vale?

E, para finalizar, Herr Hatzinger condena veementemente as guerras santas. Concordo. Toda e qualquer guerra deve ser condenável. Mas ele posicionar-se como se o catolicismo jamais tivesse partilhado dessa tendência, é um absurdo histórico. Então as Cruzadas – devidamente abençoadas pelos Papas de plantão – não foram guerras santas?

E quando Herr Hatzinger diz que o caminho para Deus jamais passa pela violência, como fazem os muçulmanos que impõem à custa de armas a fé no Corão, está esquecendo que a Igreja Católica fez igual, se não pior ainda, na época da Inquisição, quando obrigava judeus a negarem sua fé e – até mesmo mudando seus nomes – abraçarem o catolicismo. Sob pena de fogueira, se acaso se recusassem.

Na Homilia da Missa que oficiou em Regensburg, Alemanha, Herr Hatzinger condenou o fanatismo. Também concordo. Todo e qualquer fanatismo, especialmente o religioso, tem de ser condenado. Mas nosso Papa nada disse sobre a Opus Dei... E olhem que ela é apenas uma migalha de fanatismo dentro da Religião Católica.

Mas vamos deixar essa história da Opus Dei para uma outra ocasião, caso contrário vamos ficar escrevendo horas a fio...

Por enquanto, por hoje, apenas vale deixar aqui registrada a minha decepção com relação ao mais alto dignitário do Catolicismo, aquele que é o representante de Deus na Terra e o ocupante do Trono de São Pedro: não dá para entender por que não se pensa em evolução, dentro do Vaticano.

E, se não para evoluir, então o Vaticano deveria ser iluminado à luz de velas, usar tambores e pombos-correio no lugar de telefones e internet, andar de jegue em vez de usar um papamóvel e, por fim, jamais por os pés dentro de um avião – afinal se Deus quisesse que os homens voassem, ter-lhes-ia dado asas.