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JUS ESPERNEANDI
A Justiça dos homens – e muito
provavelmente, a desta nossa amada terrinha, em especial – concede ao réu o
direito de espernear. Mormente quando se trata de um réu de cheia carteira. É
exatamente como na fábula de Lobato, O sapo e o latão de leite, em que
um gordo Bufus sp., vai parar dentro de um latão de leite e,
persistente, esperneia sem parar e acaba por se salvar porque, com toda a sua
movimentação, o leite se transforma em manteiga. Ora, isso só foi possível
porque o leite era gordo – portanto, rico – e teve condições de se transformar
em manteiga. Fosse o leite ralo, magro, pobre, o sapo teria morrido, o leite
jamais se transformando em manteiga.
O réu de rica carteira pode
espernear, pode lançar mão do jus esperneandi, pois tem como sustentar
os advogados, tem como bancar as custas de um longo processo, de uma seqüência
inimaginável de movimentações jurídicas que culminam, indefectivelmente, num
prolongamento do tempo de processo e até mesmo a que este venha a terminar
quando uma eventual pena já esteja devidamente prescrita.
E isso, é
óbvio, sem contar com os incríveis, complicados e demorados meandros processuais
que fazem com que o réu venha a ser julgado, a sentença proferida – e depois ou
o julgamento é anulado ou a sentença é reformada. O resultado, não importa o que
aconteça, é sempre o mesmo: impunidade para os ricos culpados e grade para o
pobre, seja este culpado, semi-culpado ou até mesmo inocente.
Está certo,
minha senhora e meus senhores... Pelo menos filosoficamente não existe meio
culpado, assim como não pode existir uma mulher que esteja meio
grávida, ou alguém que seja meio homossexual. Essas coisas, não
admitem meio-termo, bem sei. Mas somos obrigados a admitir – não concordam? –
que há uma diferença significativa entre aquela mãe pobre (vejam bem que não se
trata simplesmente de uma pobre mãe) que rouba um pote de margarina no
valor de R$1,50 e o político que mete a mão em um milhão e meio de reais... E o
engraçado é que este último não vai parar atrás das grades, enquanto a mãe pobre
fica meses mofando numa cadeia imunda.
Mas citei como exemplo de
desonesto rico um político qualquer e cometo, com isso, uma injustiça. Temos a
esperança de que nem todo político seja desonesto, criminoso. É bem verdade que
seria preciso procurar com uma lanterna, tal como Diógenes... Mas deve existir.
Impossível que toda a política esteja tomada por bandidos de gravata!
Acho que eu seria um pouco mais justo se mencionasse, também como
exemplo de impunidade, os bandidos que já estão atrás das grades e que, mesmo
assim, lá de dentro dos presídios devidamente transformados em escritórios
administrativos do crime, continuam a gerenciar suas atividades, a ganhar rios
de dinheiro e, graças a sólidas e imensas fortunas, seguem comprando desde
carcereiros até desembargadores, passando por toda a escala cromática da
hierarquia judiciária.
E isso sem levar em conta a palhaçada caríssima
de se transportar criminosos de Catanduvas para o Rio de Janeiro, por causa de
uma audiência. E o transporte é feito num jato executivo! Provavelmente com
lanchinho a bordo, e isso se não houver o privilégio de um drinque. Importado, é
óbvio.
E lá vai Fernandinho voando luxuosamente para o Fórum... E lá vem
Fernandinho de volta para seu apê em Catanduvas... E nós, pagando, é
claro.
Não tinha sido autorizado o sistema de julgamentos através de
vídeo-conferência? E a troco dequê o raio do julgamento foi adiado? E onde será
que Fernandinho vai esperar pela nova data? Será que numa suíte presidencial do
Copa? Dinheiro para isso ele tem, se quisesse e pudesse optar. Mas para quê? O
governo, com certeza, há de lhe proporcionar acomodações confortabilíssimas e...
muito mais seguras e garantidas do que em qualquer cinco
estrelas!
Enquanto isso, a mãe pobre mofa num depósito de presos. Cria
bolor e revolta. O defensor público, se é que houve um, mal leu o processo,
deixou que as coisas corressem. O juiz que deu a sentença – ou que simplesmente
foi protelando o andamento do processo, por ser algo de pequena monta e que não
haveria de gerar qualquer tipo de benefício – nem se deu o trabalho de analisar
motivos, razões, situações. Ela roubou? Há de pagar! E fecha o processo,
apressado, para atender o telefonema do advogado de um traficante de peso, dono
de cinco casas de bingo, advogado este com quem se encontrou no jantar da
véspera, durante o qual recebeu um envelope pardo e pesado, para lhe dizer que
sossegasse, que até o fim do dia o seu cliente estaria em liberdade.
Ou
seja, gozando em toda a plenitude a Impunidade.
Categoria:
Contos e Crônicas
Escrito por
ryoki
às
15h55
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