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Arte e Literatura
O SEBO
Pouco maior que uma quitanda e quase tão sujo quanto uma peixaria malcuidada, este estabelecimento comercial não deixa de ter seu encantamento, sua poesia.
Todo o mobiliário se resume a uma escrivaninha em que o proprietário faz suas anotações, duas cadeiras ordinárias e montanhas de livros espalhadas pelo meio da loja, empilhadas pelos cantos, que sobem pelas paredes formando uma decoração caótica e complicada. Em todos os montes são desrespeitados os princípios mais elementares do equilíbrio e vê-se claramente que não há a menor preocupação com a estética. Aliás, não é mesmo possível adotar qualquer ordem de arrumação, pois os volumes, cada um diferente do outro em tamanho, cor e forma, não permitem tal luxo.
E há um certo aroma no ar! Sim, pois assim como uma quitanda ou uma peixaria tem seus cheiros característicos, esta loja também tem o seu: é um cheiro de mofo, de poeira misturada com nicotina e papel velho. Pode ser que seja o inferno para os asmáticos, mas conheço muitas pessoas que adoram essa mescla de estranhos perfumes... Entre elas há até as que dizem que esse é o cheiro da verdadeira intelectualidade.
Estamos num sebo, numa loja de livros usados, de segunda ou mesmo de enésima mão.
Já pela simples disposição das mercadorias, vemos que é absolutamente impraticável toda e qualquer operação de limpeza.
Faxina, então, nem pensar! Imaginem ter de levar tudo aquilo parra algum lugar para se poder passar um pano no chão! Varrer, apenas varrer, já é uma tarefa complicada e arriscada, pois seria muito fácil misturar com o lixo diversos opúsculos e livretos que jazem pelo assoalho em completa intimidade com pontas de cigarro, papéis de bala, palitos de fósforos queimados e muitas outras coisas ainda bem menos nobres e poéticas. Isso, é claro, sem falar do perigo de se esbarrar numa avultada pilha de enciclopédias, mal equilibrada sobre um dicionário, e causar um monumental desastre... Há até o risco de morte. A morte sob o peso do conhecimento!
Encontrar, especificamente, uma obra ali? Tarefa totalmente impossível. Nessa loja, compra-se aquilo que o acaso faz cair nas mãos. Lobato está ao lado de Eça que, por suas vez, está por cima de Montaigne, que, inexplicavelmente, está apoiado em Rousseau — que se encontra frente a frente com Byron. O positivismo se avizinha do tomismo e Kant se deixa montar por Sartre e por Baudelaire. James Joyce disputa um instável lugar com Hemingway, enquanto Jorge Amado e Simone de Beauviur empurram Thomas Mann para uma posição perigosa.
Sorrindo, vemos que inimigos mortais em vida se encontram agora lado a lado, deitados juntos, placidamente instalados. Talvez em seus túmulos, eles estejam remexendo, cheios de revolta...
Escrito por
ryoki
às
12h08
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Vaidade Mórbida
Há semanas venho estudando alguma coisa para poder desenvolver meu próximo romance. A história toda deverá girar em torno da vaidade. Sim, o tema será exatamente este: vaidade esta vista por diversos e diferentes ângulos, sob seus múltiplos aspectos. A idéia é tentar mostrar que essa característica do ser humano, na realidade, é apenas mais um foco de conflito – ou seja, de infelicidade e de angústia.
E, de repente, leio a notícia sobre a bela modelo de 21 anos – meu Deus, que criança, ainda! – Carolina Reston Macan. A menina morreu, vítima de falência múltipla dos órgãos causada por uma deficiência global de nutrientes e, conseqüentemente, da resistência orgânica. Resumindo: morreu de fome.
Obviamente, a causa mortis seria essa: falência múltipla dos órgãos. Pelo menos é o que o legista – ou patologista – deve ter marcado em seu atestado de óbito. Mas a causa-base, o verdadeiro motivo de Carolina ter tão cedo deixado o convívio de seus parentes, amigos, admiradores e quantos mais tiveram o privilégio de vê-la, ainda que apenas em fotografias, não é outra senão a vaidade.
No caso, uma vaidade mórbida, que a levou a sacrificar de forma ultra-radical um dos prazeres da vida: o ato de comer. Simplesmente, a moça passou fome – voluntariamente – até morrer.
Porém, não a podemos culpar. A vaidade mórbida é uma doença e, como tal, teria de ter sido tratada.
A culpa seria, então de todos aqueles que a viram definhar e nada fizeram? Creio que também não. A culpa, a verdadeira culpada é a vaidade. Não a vaidade da própria Carolina – esta era um quadro psicopatológico – mas sim a vaidade de uma sociedade consumista como um todo, que não se satisfaz jamais e que obriga, que leva pessoas como essa modelo a prescindir de sua saúde – tanto física como psíquica – até chegar ao extremo da morte.
Certos estiveram os espanhóis que proibiram modelos excessivamente magras de desfilar. Se isso “pega”, teríamos uma forma – ainda que débil – de impedir que tantas jovens cheias de vida e de sonhos acabassem doentes.
Desta vez, no caso da pobre Carolina, a mídia se manifestou pelo menos um pouco mais do que de outras vezes. Tantas vezes, tantas mortes...
Talvez a sociedade consumista abra os olhos. Talvez deixe de dar tanta importância à vaidade e passe a dar um pouco mais de importância à vida.
Talvez deixe de consumir muitas jovens.
Escrito por
ryoki
às
11h03
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Quinze minutos de fama
Lembro-me de uma cena hilária no Porto de Santos, lá pelos idos de 1954: um casal de ingleses desceu do transatlântico Andes, da British Royal Mail, vestidos como se estivessem chegando no meio da savana africana do final do século XIX. Botas de cano alto, chapéu tipo colonial, roupas cáqui de mangas compridas e véu protetor de mosquitos sobre a cabeça. Como eram ingleses, não creio que tivessem percebido o rídiculo e, no máximo, devem ter comentado entre si que o desagradável daquele lugar era a presença de tantos estrangeiros...
Pois temo que as coisas estejam caminhando para a reprise dessa situação. Li, agora mesmo, um artigo - jamais seria uma reportagem - do Joe Sharkey, aquele jornalista do NY Times que estava a bordo do Legacy no terrível acidente do vôo 1907.
Está certo que a globalização, a velocidade de deslocamento e a necessidade de as pessoas irem cada vez mais longe em busca seja de lazer, seja do ganha-pão, leva a algumas sérias modificações de hábitos e a outras tantas precauções. Coisas normais de pessoas minimamente inteligentes, o que parece não ser o caso de Joe.
Além de ser mais ou menos óbvio que alguém que carregue um celular numa viagem internacional espere que essa moderna máquina de fazer doido funcione em qualquer lugar do mundo - desde que tenha cobertura de sinal para celular, evidentemente - Joe Sharkey parece não gostar definitivamente do Brasil.
Senão, vejamos: para começar, antes que começassem as investigações ele já defendeu os pilotos americanos com unhas e dentes, como se estes fossem os únicos anjos do céu. Não satisfeito, levantou dúvidas quanto à imparcialidade da investigação levada a cabo pela FAB e autoridades brasileiras. Como se não bastasse, disse que eles pousaram numa "obscura base da força aérea" no meio da floresta.
O que ele queria? Um hotel de cinco estrelas no Cachimbo? Até temos alguma coisa semelhante... Mas não numa base aérea de floresta, feita para militares a quem o luxo é coisa secundária, supérflua especialmente quando estão trabalhando. E não acredito que alguém queira passar férias no Campo de Provas Brigadeiro Velloso. Base esta que, diga-se de passagem, de obscura não tem nada.
Joe Sharkey, com todas as suas críticas ao nosso país, ao nosso sistema, à nossa competência como investigadores de um acidente aéreo, esquece-se de levantar as mãos aos céus e agradecer. E agradecer a Deus tê-lo colocado num avião que foi construído robusto o bastante para apenas quebrar uma ponta de asa, não danificar tão seriamente assim o profundor e que conseguiu pousar pondo-o junto com os seus companheiros de viagem, em segurança no solo da "obscura base da força aérea", Campo de Provas Brigadeiro Velloso. E esse avião tão robusto foi construído pela Embraer. A nossa Embraer, brasileira, dirigida por brasileiros, com trabalhadores brasileiros.
E, com certeza, dentre esses trabalhadores tupiniquins, o mais humilde dos faxineiros saberia que carregar um celular para o meio da selva amazônica é bem pior do que esse obscuro jornalista - tão obscuro que confessa no início de sua matéria estar aproveitando o pouco que lhe resta dos seus quinze minutos de fama - disse: "Fora dos Estados Unidos, ele [o celular que ele trazia] equivale a segurar na mão um cachorro quente com mostarda." É pior, Mr. Sharkey. Pelo menos, o hot-dog você poderia comer. O celular não dá. Aliás, não daria nem mesmo para ser usado como supositório.
Escrito por
ryoki
às
09h14
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O Livro como Fonte de Renda
Apesar do Brasil ser um país onde se lê aproximadamente 0,7 livros/habitante/ano, o mercado livreiro e editorial tem se mostrado uma fonte de renda das mais promissoras. De qualquer maneira, é de se esperar que uma nação que se dá o luxo de informatizar praticamente a totalidade de suas atividades burocráticas e empresariais, não continue a trilhar, culturalmente, o mesmo caminho - e no mesmo ritmo - que a Somália, Ruanda e Nigéria. O povo se ilustra cada vez mais, dia a dia, vê e sente a necessidade de expandir seus conhecimentos e sabe que, a despeito da televisão, o livro ainda é a melhor e a mais barata maneira de adquirir informações. Assim, tanto do ponto de vista editorial quanto do consumo de livros, a tendência é melhorar.
No entanto, ainda é preciso lutar contra muitos obstáculos, contra muitas artimanhas desenvolvidas pelos distribuidores e livreiros, artimanhas estas geradas por uma política econômica nacional de juros altíssimos - que no mínimo inibem os investimentos - e que, "contaminando" o pensamento dos que trabalham neste ramo, prejudicam seriamente o desenvolvimento de um mercado que, a exemplo do que ocorre nos países desenvolvidos, é um dos mais lucrativos.
A taxa de desconto cobrada por muitas distribuidoras, superando os 50% do preço de capa, deveria ser menor. Não houvesse uma porcentagem tão alta e o livro poderia chegar ao consumidor por um valor bem menor, facilitando vendas e possibilitando o acesso à cultura para um maior número de pessoas. A mentalidade colonialista que impera na maioria das editoras brasileiras - mentalidade esta provavelmente ditada por uma tendência que vem do próprio povo e que está no velho ditado "santo de casa não faz milagre" - determina a preferência editorial por autores estrangeiros, em detrimento dos patrícios que, certamente não têm menos valor que um Sheldon, um Robbins ou um Higgins. Temos brasileiros que escrevem muito bem, que possuem idéias excelentes e que poderiam se tornar grandes, desde que editados e, evidentemente, lidos. O preconceito pior parte dos livreiros - contra o qual nós temos lutado muito - de que o livro de bolso não tem aceitação por parte dos leitores, é um outro fator impeditivo de uma maior divulgação dos livros no seio do grande público. Um livro de bolso pode conter exatamente o mesmo texto que uma edição de luxo, com a vantagem de custar menos, justamente por não pensar em ostentação e apresentação luxuosa. O valor daquilo que está escrito é imutável. Ou presta ou não presta e cabe ao editor, antes do leitor, saber filtrar aquilo que irá levar às prateleiras das livrarias.
São espinhos que aqueles que desejam ingressar nesse mercado, têm de vencer. É uma luta que se deve abraçar contando como principal arma, a necessidade que o povo brasileiro vem demonstrando, de melhorar seu nível cultural para que, não apenas em reservas cambiais, de fato passe a trilhar o caminho do Primeiro Mundo. O brasileiro sabe que para se equiparar a qualquer outro povo mais desenvolvido, o requisito primordial é a cultura e, exatamente por isso, vem procurando aumentar em primeiro lugar, o seu nível de leitura.
Autores novos, talentosos, surgem a cada dia. Porém, esses gênios continuam apagados porque seus trabalhos não são divulgados, não são publicados, não são vendidos, não são lidos. São os preconceitos e os temores das editoras os principais motivos para que esses novos luminares jamais apareçam.
Há os mais ousados, os que se arriscam uma vez, levam sua obra a uma gráfica, mandam imprimir e... infelizmente, fracassam. Esse fracasso foi determinado principalmente pela falta de orientação editorial. Uma gráfica simplesmente executa o serviço gráfico que, inclusive, pode ser muitíssimo bem feito. Contudo, fazer um livro não é apenas mandar imprimir cento e tantas páginas de papel. Há que se editar o livro. Há todo um processo de revisão, desde a simples revisão datilográfica e ortográfica, até mesmo a delicada e sutil revisão literária, em que o editor apreende a idéia do autor e a retransporta para o papel, colocada em termos claros, lisos, escorreitos e de fácil entendimento.
Por isso a necessidade de uma editora. Temos visto obras de bons autores, bem escritas e com idéias excelentes, que não conseguiram "decolar", simplesmente por falta de quem as editasse convenientemente.
O custo editorial não é barato mas, as vantagens vistas no produto final são inegáveis. Uma obra que tenha o respaldo de uma editora e que não seja uma mera "produção independente", tem toda uma tecnologia e todo um know-how em sua execução, que permite a aceitação pública mais imediata.
Aceitação que vai desde a apresentação do livro, com a escolha de uma boa capa e um bom título, até a elaboração da idéia, no miolo do livro e a sua explanação ao leitor.
Escrito por
ryoki
às
18h25
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