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O SEBO

Pouco maior que uma quitanda e quase tão sujo quanto uma peixaria malcuidada, este estabelecimento comercial não deixa de ter seu encantamento, sua poesia.

Todo o mobiliário se resume a uma escrivaninha em que o proprietário faz suas anotações, duas cadeiras ordinárias e montanhas de livros espalhadas pelo meio da loja, empilhadas pelos cantos, que sobem pelas paredes formando uma decoração caótica e complicada. Em todos os montes são desrespeitados os princípios mais elementares do equilíbrio e vê-se claramente que não há a menor preocupação com a estética. Aliás, não é mesmo possível adotar qualquer ordem de arrumação, pois os volumes, cada um diferente do outro em tamanho, cor e forma, não permitem tal luxo.

E há um certo aroma no ar! Sim, pois assim como uma quitanda ou uma peixaria tem seus cheiros característicos, esta loja também tem o seu: é um cheiro de mofo, de poeira misturada com nicotina e papel velho. Pode ser que seja o inferno para os asmáticos, mas conheço muitas pessoas que adoram essa mescla de estranhos perfumes... Entre elas há até as que dizem que esse é o cheiro da verdadeira intelectualidade.

Estamos num sebo, numa loja de livros usados, de segunda ou mesmo de enésima mão.

Já pela simples disposição das mercadorias, vemos que é absolutamente impraticável toda e qualquer operação de limpeza.

Faxina, então, nem pensar! Imaginem ter de levar tudo aquilo parra algum lugar para se poder passar um pano no chão! Varrer, apenas varrer, já é uma tarefa complicada e arriscada, pois seria muito fácil misturar com o lixo diversos opúsculos e livretos que jazem pelo assoalho em completa intimidade com pontas de cigarro, papéis de bala, palitos de fósforos queimados e muitas outras coisas ainda bem menos nobres e poéticas. Isso, é claro, sem falar do perigo de se esbarrar numa avultada pilha de enciclopédias, mal equilibrada sobre um dicionário, e causar um monumental desastre... Há até o risco de morte. A morte sob o peso do conhecimento!

Encontrar, especificamente, uma obra ali? Tarefa totalmente impossível. Nessa loja, compra-se aquilo que o acaso faz cair nas mãos. Lobato está ao lado de Eça que, por suas vez, está por cima de Montaigne, que, inexplicavelmente, está apoiado em Rousseau — que se encontra frente a frente com Byron. O positivismo se avizinha do tomismo e Kant se deixa montar por Sartre e por Baudelaire. James Joyce disputa um instável lugar com Hemingway, enquanto Jorge Amado e Simone de Beauviur empurram Thomas Mann para uma posição perigosa.

Sorrindo, vemos que inimigos mortais em vida se encontram agora lado a lado, deitados juntos, placidamente instalados. Talvez em seus túmulos, eles estejam remexendo, cheios de revolta...



Categoria: Arte e Literatura
Escrito por ryoki às 12h08
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JUS ESPERNEANDI

A Justiça dos homens – e muito provavelmente, a desta nossa amada terrinha, em especial – concede ao réu o direito de espernear. Mormente quando se trata de um réu de cheia carteira. É exatamente como na fábula de Lobato, O sapo e o latão de leite, em que um gordo Bufus sp., vai parar dentro de um latão de leite e, persistente, esperneia sem parar e acaba por se salvar porque, com toda a sua movimentação, o leite se transforma em manteiga. Ora, isso só foi possível porque o leite era gordo – portanto, rico – e teve condições de se transformar em manteiga. Fosse o leite ralo, magro, pobre, o sapo teria morrido, o leite jamais se transformando em manteiga.

O réu de rica carteira pode espernear, pode lançar mão do jus esperneandi, pois tem como sustentar os advogados, tem como bancar as custas de um longo processo, de uma seqüência inimaginável de movimentações jurídicas que culminam, indefectivelmente, num prolongamento do tempo de processo e até mesmo a que este venha a terminar quando uma eventual pena já esteja devidamente prescrita.

E isso, é óbvio, sem contar com os incríveis, complicados e demorados meandros processuais que fazem com que o réu venha a ser julgado, a sentença proferida – e depois ou o julgamento é anulado ou a sentença é reformada. O resultado, não importa o que aconteça, é sempre o mesmo: impunidade para os ricos culpados e grade para o pobre, seja este culpado, semi-culpado ou até mesmo inocente.

Está certo, minha senhora e meus senhores... Pelo menos filosoficamente não existe meio culpado, assim como não pode existir uma mulher que esteja meio grávida, ou alguém que seja meio homossexual. Essas coisas, não admitem meio-termo, bem sei. Mas somos obrigados a admitir – não concordam? – que há uma diferença significativa entre aquela mãe pobre (vejam bem que não se trata simplesmente de uma pobre mãe) que rouba um pote de margarina no valor de R$1,50 e o político que mete a mão em um milhão e meio de reais... E o engraçado é que este último não vai parar atrás das grades, enquanto a mãe pobre fica meses mofando numa cadeia imunda.

Mas citei como exemplo de desonesto rico um político qualquer e cometo, com isso, uma injustiça. Temos a esperança de que nem todo político seja desonesto, criminoso. É bem verdade que seria preciso procurar com uma lanterna, tal como Diógenes... Mas deve existir. Impossível que toda a política esteja tomada por bandidos de gravata!

Acho que eu seria um pouco mais justo se mencionasse, também como exemplo de impunidade, os bandidos que já estão atrás das grades e que, mesmo assim, lá de dentro dos presídios devidamente transformados em escritórios administrativos do crime, continuam a gerenciar suas atividades, a ganhar rios de dinheiro e, graças a sólidas e imensas fortunas, seguem comprando desde carcereiros até desembargadores, passando por toda a escala cromática da hierarquia judiciária.

E isso sem levar em conta a palhaçada caríssima de se transportar criminosos de Catanduvas para o Rio de Janeiro, por causa de uma audiência. E o transporte é feito num jato executivo! Provavelmente com lanchinho a bordo, e isso se não houver o privilégio de um drinque. Importado, é óbvio.

E lá vai Fernandinho voando luxuosamente para o Fórum... E lá vem Fernandinho de volta para seu apê em Catanduvas... E nós, pagando, é claro.

Não tinha sido autorizado o sistema de julgamentos através de vídeo-conferência? E a troco dequê o raio do julgamento foi adiado? E onde será que Fernandinho vai esperar pela nova data? Será que numa suíte presidencial do Copa? Dinheiro para isso ele tem, se quisesse e pudesse optar. Mas para quê? O governo, com certeza, há de lhe proporcionar acomodações confortabilíssimas e... muito mais seguras e garantidas do que em qualquer cinco estrelas!

Enquanto isso, a mãe pobre mofa num depósito de presos. Cria bolor e revolta. O defensor público, se é que houve um, mal leu o processo, deixou que as coisas corressem. O juiz que deu a sentença – ou que simplesmente foi protelando o andamento do processo, por ser algo de pequena monta e que não haveria de gerar qualquer tipo de benefício – nem se deu o trabalho de analisar motivos, razões, situações. Ela roubou? Há de pagar! E fecha o processo, apressado, para atender o telefonema do advogado de um traficante de peso, dono de cinco casas de bingo, advogado este com quem se encontrou no jantar da véspera, durante o qual recebeu um envelope pardo e pesado, para lhe dizer que sossegasse, que até o fim do dia o seu cliente estaria em liberdade.

Ou seja, gozando em toda a plenitude a Impunidade.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 15h55
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Não vai sobrar ninguém

Por que será que não nos surpreendemos mais com essas notícias que vêm de Brasília? A cada dia que passa é uma novidade... E novidades que, em outros países, especialmente ao norte do Equador, seriam suficientes para, no mínimo, causar renúncias de cargos, demissões e – conforme o caso – até mesmo suicídios.

Mas aqui nesta terrinha abençoada por um Deus que se faz representar por Herr Hatzinger (daí, talvez, a certeza de sua falibilidade), as novidades acontecem, as denúncias surgem, há uma certa agitação – para inglês ver – e, assim que a poeira assenta, tudo volta ao status quo ante. Nada acontece, tudo continua absolutamente igual. Apenas nossos políticos sujaram-se um pouquinho mais – mas nada que uma boa lavadeira não consiga consertar, especialmente se essa lavadeira já estiver bem treinada numa certa forma muito peculiar de lavagem.

Agora foi a vez do Renan. Ele mesmo, o Calheiros, presidente do Senado. Um homem que deveria ter conduta exemplar, comportamento a servir de modelo.

Mas não... Eis que surge uma filha, uma mulher que o leva à Vara de Família por causa de pensão alimentícia e comprovação de paternidade. Coisas que costumamos ver nos jornais, implicando pessoas de esferas político-sociais bem mais baixas e que, vez por outra, acabam em tragédia.

Aliás, a bem dizer a verdade, a tragédia aí já está: o presidente do Senado envolvido com propinas, presentes inadequados, aventuras extra-conjugais, filha fora-de-hora. Um caso amoroso ainda pode ser perdoável – desde que exista realmente o amor. Não é porque um indivíduo está ocupando a cadeira central da mesa do Senado que ele está livre de se apaixonar, de sentir a necessidade de mudar a vida. Tal fato já ocorreu com tantos... Veja-se o exemplo do Ciro Gomes. Mas ele assumiu. E o caso não foi parar em nenhuma Vara de Família.

Com o Renan foi bem diferente. A prova de que não houve amor está justamente no fato de a mulher envolvida ter de ir parar diante de um Juiz para discutir pensão alimentícia e paternidade. Se amor houvesse, esses detalhes seriam absolutamente supérfluos. Como dizem os advogados, intempestivos, impertinentes e extravagantes.

Outro fator a ser considerado: ao assumir um “rebento”, é no mínimo mais ou menos normal que o pai assuma o seu sustento tirando do próprio bolso as despesas decorrentes da existência de um ser que, de fato, não pediu para vir ao mundo. E o Renan “entregou” a lista dessas despesas para uma empresa... Que certamente não aceitou tal encargo simplesmente pelos belos olhos envidraçados do Senador. Sabemos todos que no mundo dos negócios e da política, não há essa história de ir para a cama por amorzinho... Há pagamento, troca, barganha, escambo. Isso sim.

No episódio Renan, houve apenas um “caso”. Tão fortuito que as conseqüências acabaram por gerar a confusão. E a confusão não é a menina – por sinal, se puxou a mãe, será bem bonita – mas sim a necessidade patológica de seguir errado aquilo que começou torto. Houve o erro – de cálculo, de comunicação, de pontaria – e parece que o implicado na história pensou seguindo a velha norma do “perdido por perdido, perdido e meio”. E isso para ser delicado... Por que gastar o meu dinheiro se é tão simples fazer com que outros gastem por mim? Por que pagar por um ato se outros podem fazê-lo por mim? Na verdade, parece ser esta a sina do brasileiro – o comum, aquele que trabalha e sofre calado, aquele que não foi laureado com um diploma de político e nem deixou um lugar reservado no Inferno – aquele que Herr Hatzinger garantiu que existe para punir as pessoas que andam mal nesta vida – e transformaram-se em empresários ou profissionais corruptos. A sina do brasileiro é pagar para qe outros usufruam. Cinco meses de trabalho por ano só para pagar impostos! E ainda se valesse a pena...!

Mas é isso aí... A julgar pelo que andamos vendo nestes últimos tempos, periga de não sobrar ninguém no Congresso, no Judiciário, no governo.

Mas, como já foi dito antes e até virou título de livro, sempre há esperança.

E a esperança é praticamente uma certeza, pois o Poder Judiciário, num formidável mecanismo de auto-defesa, acabará por absolver todo mundo – ou quase todo mundo, deixando um ou outro Tiradentes ser sacrificado – de forma que sempre sobrará muita gente.

Concomitantemente, o Congresso fará o mesmo.

E nós continuaremos a acreditar no IBGE, no IBOPE, nos índices, nas porcentagens, nas palavras e lágrimas do Presidente... Continuaremos a pagar impostos para assistir ao desgoverno, para ver nossos representantes ganharem fortunas por mês, para ver os três pilares da nossa sociedade – a Segurança, a Educação e a Saúde – esboroarem dia após dia, governo após governo.

E Deus – que disseram ser brasileiro – parece achar graça.
O que não é contraditório, pois nós somos mesmo uma piada. Pena que seja uma piada muito sem graça.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 12h09
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Mais um para ouvir nossas orações

E, talvez por ser um santo fresco, ele possa ter mais acesso ao Todo Poderoso. Mais, por ser um santo tupiniquim, pode ser que entenda melhor nossos problemas e interceda junto à Chefia com os pedidos certos. Como diria Rui Barbosa, “tempestivos, pertinentes e intravagantes”.

Sim, pois os santos a quem estamos acostumados a rezar são europeus em sua maioria e, justamente por isso, a eles não é dado compreender o nosso modo de ver as coisas, a nossa maneira de enxergar o mundo, seus obstáculos e suas exigências. Pode ser, mesmo, que estes santos do Primeiro Mundo, jamais consigam entender que as regras – especialmente aquelas relacionadas com a moral – são completamente diferentes aqui, nesta parte de baixo da Linha do Equador.

Assim, rezemos para Frei Galvão.
Peçamos que ele encaminhe à Direção do Universo um requerimento – obviamente em cinco vias, todas devidamente autenticadas e com firma reconhecida – solicitando que aos nossos homens públicos seja dada a virtude de desviar um pouco os olhos de seus próprios umbigos – nos melhores casos, do umbigo e interesses de seus partidos – e procurem enxergar o povo. Que eles possam perceber que a imensa maioria dos brasileiros vive sem nenhuma perspectiva de um amanhã, vive apenas dia-após-dia, da mão para a boca e tentando sublimar quaisquer preocupações com um futuro, pois este é tão incerto quanto o mar.

Peçamos que aquela fatia de brasileiros encarregados de fazer cumprir a Lei e de manter a Ordem, façam-no com sabedoria, compreensão e – no mínimo – honestidade, para que deixem de acontecer os casos de corrupção da polícia, da administração e até mesmo do judiciário.

Peçamos que os meus ex-coleguinhas – antes vestidos de branco e hoje usando gravatas de fazer inveja a um certo rabino – comecem a lembrar do Juramento de Hipócrates e passem a exercer sua profissão com os olhos e o coração voltados realmente para as necessidades de seus pacientes e não para a saúde de suas contas bancárias. O Sistema de Saúde – e não apenas o Único, que de tão único passou a ser inexistente, mas o sistema como um todo – precisa ser acessível a todos. E com qualidade idêntica para qualquer Silva, seja ele o presidente da república ou o humilde Zé da Silva, gari de uma cidade mínima. Morrer por não poder pagar... Isso também é ser vítima de assassinato.

Peçamos que nossas crianças e nossos jovens possam estudar equanimemente. Quer dizer, em suma, que o ensino seja bom no país inteiro. Que uma escola no interior das Minas Gerais ensine a mesma coisa, da mesma maneira e com a mesma qualidade daquela que se encontra num grande centro.

Peçamos que a polícia – as forças de segurança, de um modo geral – sejam respeitáveis para que possam ser respeitadas. E que deixem de ser motivo de medo tanto quanto o são os bandidos que ela apregoa prender e que, na realidade, não conseguem – ou não querem uma vez que não deve ser muito fácil dar voz de prisão a sócios.

Peçamos que nossos capitães-de-indústria – e o povo todo – abram os olhos para uma consciência mais ecológica, que pensem e admitam que o progresso tem de vir, no mínimo a partir de agora, antes que seja tarde demais, com a utilização de energia limpa e fontes energéticas sustentáveis. Não é possível deixar acontecer o Inferno de Dante ou o Apocalipse simplesmente por ambição desmedida e por falta de visão em relação ao futuro. Em resumo, por mero egoísmo das gerações atuais. Temos de ganhar dinheiro e, se para isso for preciso destruir o mundo, não estaremos mais aí para presenciar o resultado de nossos atos.

Peçamos que o nosso povo tenha mais discernimento na hora de votar, aprendendo a distinguir os bons dos maus, aprendendo a separar o joio do trigo. Principalmente aprendendo a ver as diferenças entre um sapo, uma raposa e um Homem. Assim mesmo, com “H” maiúsculo.

E, por fim, o mais difícil...

Peçamos que o Gerente Supremo capriche um pouco mais na escolha de seus representantes para esta dimensão e não deixe que prossiga a invasão do clero por homossexuais, pederastas, mercenários e indivíduos que conseguem reunir todos – se não a maioria dos – defeitos de fabricação que a Indústria Criativista pôde fabricar.

E, justamente por ser um santo brasileiro, peçamos a ele que, se necessário, faça uso dos artifícios que esta Terra de Cabral tão bem conseguiu desenvolver no correr dos últimos cinco séculos: uma propinazinha pode acelerar as coisas, pode apressar as decisões, especialmente se o sistema judiciário dessa outra dimensão em que ele se encontra seja semelhante à nossa, aqui do Planalto, em que os requerimentos e processos só andam se impulsionados a dólares...

Rezemos, portanto a Frei Galvão... Façamos promessas...

Promessas? Mas será que a promessa a um santo não é uma forma de propina? “Se eu ganhar na Mega-Sena, dou 20% do prêmio para a Igreja...” Isso é propina, minha gente!

Então... Os santos também usam esse sisteminha... Trabalham se impulsionados a promessas.

Mormente em se tratando de um santo tupiniquim.

Mas, a esperança é sempre a última que morre. E enquanto ela estiver agonizando, vamos rezar e fazer promessas.

Depois de ler isso, os prezados e horrorizados amigos poderão pensar que eu me tornei agnóstico. No mínimo, ateu.

Mas não é bem assim.

Pelo menos, quero acreditar num Deus. Um Deus que, como reza a Bíblia Sagrada, é Boníssimo e Justíssimo – destarte não permitindo as desigualdades que grassam neste mundo. Que seja Onisciente e Onipotente – assim, conhecendo as necessidades de Seus filhos e impedindo que estas se transformem em desculpas para a violência e a miséria espiritual. Que saiba escolher Seus ministros e impeça que crianças inocentes e pessoas adultas mal orientadas sejam vítimas de estupros, molestamentos e outros constrangimentos que, de uma forma ou de outra acabarão por deixar marcas nessas pobres almas. Que diga a Seus ministros mais destacados – especialmente a “Herr Hatzinger” que é preciso pensar no progresso da humanidade, na evolução da ciência e, sobretudo, na evolução dos costumes. E que é preciso a Igreja ser coerente: não faz sentido pregar a igualdade, ela mesma fazendo valer tanta desigualdade, fazendo e mostrando a quem quiser ver distinções hierárquicas e materiais que, mais uma vez no mínimo, levam ao descrédito de suas próprias pregações.

E, para aqueles que me conheceram em outros tempos, digo, repito e sublinho: não me tornei comunista, nem mesmo socialista.

Apenas, com o passar dos anos, fui me tornando mais cético. E, talvez, mais sonhador.

Justamente por isso, e apesar de tudo, ainda sonho com a possibilidade de Frei Galvão realmente interceder por este nosso pobre e desamparado Brasil.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 19h05
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Pisca-Pisca

Bem no início da década de 60, nós estudantes que frequentávamos o bairro de Santa Cecília, o conhecemos e com ele passamos várias noitadas.
Era um homem branco, alto, simpático, com um cavanhaque "ao natural", de cabelos bem pretos e lisos. Se estivesse metido em roupas boas e caras, poderia facilmente passar por um aristocrata mas, nos farrapos que usava...
Jovem ainda, mostrava nitidamente os sinais de alcoolismo crônico: edema anarsáquico discreto, andar vacilante, tremores... Não teria mais salvação, disso todos sabiam, ele inclusive.
Chegava-se às mesas de calçada do restaurante Chic-Chá, na Avenida Angélica, e perturbava os fregueses pedindo uma esmola para comprar pão. Quando conseguia comover algum deles, com a maior caradura, caminhava para o balcão do próprio Chic-Chá e comandava, altivo, ao garçom:
— Me dá uma pinga aí!
E, com estardalhaço, punha o dinheiro sobre o mármore, sorrindo para quem lhe dera a esmola. Apanhava o copo e, solenemente, brindava o seu benfeitor:
— À sua saúde! — gritava.
Procópio, Mário e eu éramos fregueses assíduos desse restaurante, inclusive considerados fregueses "quentes", já que nossa consumação não se limitava aos chopinhos com batatas fritas mas frequentemente era de uísque com filezinho ao palito... Estudávamos até tarde da noite e, para espairecer, íamos tomar um drinque lá, esfriar a cabeça. Íamos ajudar o Mário a gastar a gorda mesada que o pai lhe mandava de Brasília.
As vezes tínhamos a sorte de encontrar o Pisca-Pisca por lá e, maldade de adolescente, nós o chamávamos para judiar do dono do bar, também nosso amigo, e para aborrecer os outros fregueses:
— Ei! Pisca! Venha tomar uma cana com a gente!
Seu apelido, Pisca-Pisca, vinha-lhe de um cacoete que o fazia abrir e fechar os olhos rapidamente, apertando muito as pálpebras, sempre que começava a ficar nervoso. E, diga-se de passagem, ele ficava nervoso bem à-toa!
Nunca conseguimos descobrir quem era ou o que tinha sido o nosso amigo.
Percebíamos que sua cultura não era nada má, conhecedor que era de vários títulos de livros, diversos autores e outras coisas assim. Não se deixava enrolar em uma conversa e parecia ter viajado muito: descrevia cidades de diferentes estados com detalhes só possíveis para quem já tivesse estado por lá. Gostava de política e, tinha bom conhecimento do assunto. Obviamente, era oposicionista mas, por incrível que possa parecer, nem ao menos era socialista. Paradoxalmente era lacerdista ferrenho.
— Mas Pisca! — falávamos para o chatear — Se o Lacerda aparecer por aqui, você está frito! Não ouviu dizer que ele joga todos os mendigos no rio?
Nosso amigo se inflamava:
— Não sou mendigo! — dizia, piscando, apertando os olhos e se agitando — Estou vivendo uma situação difícil, isso é verdade... Mas não sou mendigo, não senhor!
A corda pegava.
Começávamos a instigar os brios do homem, e a caçoar dele:
— É verdade, doutor! O senhor não é um mendigo não!
A juventude é sádica e não dá tréguas em semelhantes ocasiões. Agíamos assim, apenas para ver o pobre bêbado piscar, piscar, apertar os olhos, esfregá-los com as costas da mão suja e beber, beber sem parar. Não nos importávamos com a conta que teríamos de pagar, achávamos que essa maldosa diversão valia qualquer despesa. Nunca nos ocorreu que o Pisca-Pisca, talvez piscasse para não chorar...
Depois de muito torturar o pobre homem, íamos embora, cada um para a sua casa, para o quentinho de seu quarto enquanto o Pisca-Pisca lá ficava. Ia dormir, como sempre, nas escadarias da Igreja Coração de Maria. Não nos incomodávamos, aliás, nem sequer pensávamos nisso. Terminada a noite, pagávamos a conta, despedíamo-nos uns dos outros e saíamos.
Pisca-Pisca ficava para trás: era um objeto que fazia parte do nosso folclore noturno, nem mesmo lembrávamos que ele era humano, que sentia frio, fome e carência afetiva como qualquer um de nós.
Às vezes se passava uma semana inteira sem que o encontrássemos.
Então, uma noite qualquer, o víamos surgir, o andar grotesco, cambaleante. Ele nos via e estugava o passo, parecendo ainda mais simiesco. Cumprimentava um por um, chamando-nos pelo nome, sentava-se com a maior sem-cerimônia, chamava o garçom e pedia:
— Traz aí uma Brahma! E um conhaque que é para quebrar o gelo!
Uma noite, ele chegou ao bar antes de nós.
E, não se sabe como nem por quê, criou um caso com outro mendigo que passava. Quando chegamos, uma roda de curiosos (inclusive a polícia) se acotovelava para ver a briga dos dois.
Os palavrões eram homéricos, cabeludíssimos, seus movimentos, seus golpes, seus tapas eram idênticos aos das brigas de palhaços no picadeiro de um circo.
A cena era tão cômica que chegava a ser ridícula.
Pela primeira vez tivemos realmente pena do nosso amigo.
O ridículo espetáculo nos fez sentir vergonha e querer acabar logo com aquilo. Parecia (reconhecemos isso depois de ter acabado tudo) que era um de nós que ali estava a dar vexame, a fazer e a passar vergonha.
Abrindo caminho por entre os curiosos, separamos a briga, não deixamos a polícia intervir e consolamos nossos bêbados gladiadores com o tipo de consolo de que eles precisavam: duas belas doses de conhaque para cada um.
Em poucos minutos a briga se transformou em amizade profunda, aquela amizade que une os bêbados e os fazem contar as mazelas da vida um para o outro e se tornarem confidentes.
Enquanto sentávamos para o uísque de fim de noite, nós os vimos descendo pela calçada da avenida Angélica, dizendo-se mutuamente:
— Você sabe o que já passei nessa vida! Me desculpe por hoje!
Depois dessa noite encontramos o Pisca-Pisca por várias vezes e notamos que piorava dia após dia. Sua saúde definhava e sua mente entorpecia.
Mas isso, se nos chamava a atenção, não chegava a nos perturbar, jamais foi um motivo de preocupação.
Nem mesmo notamos quando desapareceu.
Vieram os vestibulares com aqueles meses de estudos intensivos, com as grandes tensões dos exames, as angústias e ansiedades bem típicas dessa época de nossas vidas.
Entramos na Faculdade e, calouros orgulhosos de nossas cabeças raspadas, fomos para a primeira aula, a aula que desvirgina o acadêmico de medicina: Aulas Magna de Anatomia Descritiva.
Sobre a mesa, um cadáver coberto.
Quando o professor descobriu o corpo, nós três nos olhamos e não conseguimos reprimir as lágrimas.
Alguns colegas nos viram chorar e riram, divertidos.
Mas nós, só nós, sabíamos o por quê daquela emoção.
O cadáver sobre a fria mesa de mármore, nu, duro, já acinzentado pelo formol, aquilo que outrora fora um homem e que agora era um objeto de estudo, apenas um corpo a ser retalhado para os estudantes aprenderem alguma coisa, tivera vida um dia, e nessa vida, havia nos chamado pelo nome, bebido conosco, rido e chorado conosco.
Sim, era o cadáver do nosso amigo, o Pisca-Pisca.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 12h08
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Vivendo o inferno

Alguém disse que Deus é brasileiro. Creio que há um engano por aí... Mais provável que Deus seja mesmo um grande gozador. Ou, então, deixou-se contaminar pelo espírito dos nossos homens públicos e acabou se tornando um mau brasileiro. Tenho comigo que essa é a hipótese mais provável. Deus é brasileiro, sim. Mas acabou por virar “brasileiro” demais. Quem sabe, até tenha aderido ao PT... Nosso pobre e abandonado país vive o caos na infraestrutura: transporte aéreo parado, estradas ruins/péssimas, portos sucateados, transporte ferroviário inexistente, transporte hidroviário (mas o que é isso?) inominável, saúde pública sem comentários (e o nosso Lulinha diz que está beirando a perfeição!), a educação que não educa ninguém (viva Paulo Freire!), a segurança que não existe, os impostos exorbitantes, os políticos fazendo o que querem e impunes, o salário mínimo continuando a ser uma vergonha (enquanto os “big-shots” do Planalto Central determinam salários para eles mesmos que tocam as raias do exorbitante), o Ministro da Defesa que se transformou em técnico de esconder o sol com uma peneira, os comandantes das Forças Armadas – especialmente da Aeronáutica – completamente desautorizados, o MST e similares invadindo fazendas produtivas e alegando que é uma forma de protesto contra a lentidão da reforma agrária, a Copa que perdemos... e muitas outras facetas da vida que nos leva seriamente a pensar em reformular a frase inicial: se Deus é brasileiro, então não dá para entender mais nada.

Está certo, a economia parece que anda bem. No fundo, o medo: será que isso é só aparência? Será que, de um momento para o outro a “coisa” não vai esboroar?

Está na hora de o povo brasileiro abrir os olhos. Não se trata de pregar uma revolução. O brasileiro de hoje não é disso, nem sabe o que é isso, principalmente porque desde há pouco mais de vinte anos – uma geração inteira! – vem sendo incutida na mente de todos o “sentimento democrático”, a “obrigação constitucional”, o “civilismo” (não a civilidade, vejam bem!) e o repúdio ao passado político (entenda-se o período de 1964 a 1985). Os nossos estudantes não têm preparo político (nem mesmo instrucional) para levantar a voz e protestar como se deve. Eles não têm nem mesmo idéia de sobre o que protestar. Aliás, o que tem acontecido é exatamente isso e protesto brasileiro acaba virando samba, com trio-elétrico e tudo o mais. E isso vem de longe, para consolo do governo atual, vem desde o governo FHC, com os protestos contra as privatizações. Lembro bem que perguntei a um manifestante na Avenida Paulista a razão de todo aquele protesto e ouvi como resposta que ele não sabia, mas estava ali porque o tinham mandado participar. Admirado com o que ele me falou, perguntei a vários outros. As respostas variaram, houve até quem esboçasse uma explicação de que era contra se vender o país para estrangeiros e houve uma moça que disse estar protestando contra a venda da Amazônia para os japoneses...

Disse que o povo deveria abrir os olhos. Não foi o que aconteceu na última eleição. Não apenas o presidente manteve o cargo, mas inúmeros outros políticos permaneceram, impunes ou apenas aguardando a impunidade.

É hora de renovar. E é mais do que hora de o presidente reeleito, este sim mais do que qualquer outro brasileiro, abrir os olhos e os ouvidos e começar a demitir. Deixar um pouco de lado suas metáforas futebolísticas – não se pode tomar como modelo o futebol para dirigir um país, essa história de “em time vencedor não se mexe”, mesmo porque o nosso time parreirense não conseguiu nada, portanto não é vencedor de coisa nenhuma – e passar a agir com menos autoritarismo e mais... democracia. Ou será que ele também vai aderir à idéia satânica de Chávez e instituir aqui a reeleição por tempo indefinido?

Sim, o presidente precisaria começar a demitir seu primeiro escalão. Se ele fizesse uma filtragem honesta – coisa difícil, hem? – certamente veria que seus ministros estão muito aquém das exigências mínimas do país. Se houvesse brasilidade – leia-se patriotismo – lá no Planalto Central, não haveria “negociação” para os Ministérios e muito menos a criação de novas pastas só para atender as composições políticas. Ministérios deveriam ser chefiados por técnicos, especialmente as pastas eminentemente técnicas.

Com tudo isso, nosso pobre Brasil está vivendo um inferno. E a tendência, pelo visto, é piorar.

Mas há saída. E ela está em nós, brasileiros ainda não contaminados. Precisamos reagir, gritar, espernear... Sobretudo, precisamos pensar na hora de votar.

Precisamos, simplesmente renovar. Ou forçar a renovação.

E esquecer essa história de que Deus é brasileiro, nada nos faltará.

Se olharmos bem, veremos que tudo está faltando. Principalmente vergonha na cara.



Escrito por ryoki às 11h51
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Considerações sobre a Amizade

Um dia, um discípulo perguntou a Budha: “Mestre, o que é a Amizade?” Budha sorriu docemente e respondeu: “Nada mais do que uma bengala forte e segura”.

O discípulo, depois de muitas semanas de meditação, voltou à presença do Mestre e indagou: “Como se pode comparar a Amizade com uma simples bengala? Com um pedaço de pau?”

Budha levou o discípulo até a margem de um rio e mostrou-lhe a neblina baixa que impedia de enxergar o outro lado e falou: “Imagine que você tem de atravessar este rio e que a neblina não lhe permite ver além de uns poucos passos à sua frente. A trilha de pedras, que é o único caminho para o outro lado, é formada por rochas lisas, redondas e parcialmente cobertas pela água. É uma trilha muito perigosa... Uma queda, um escorregão, e não haverá como se salvar. O que é que você faz”?

Novamente o discípulo se recolheu para meditar sobre as palavras de seu Mestre e, depois de outras tantas semanas, voltou para dizer: “Eu faria uso de uma bengala, meu Mestre. Seria esse o sentido da Amizade?”

E Budha respondeu: “Sim. É esse o sentido da Amizade. Uma bengala, um apoio que será o seu auxílio para atravessar o Rio da Vida sem ter receio de escorregar em cada uma de suas etapas. A bengala é como a Amizade, firme, segura, eficiente, capaz de sustentar o seu peso num momento difícil, numa passagem que somente as suas pernas não seriam capazes de agüentar, mas com o apoio da bengala, você cria novas forças, você adquire uma nova energia e se torna capaz de vencer o obstáculo. E é por isso que a Amizade, como a bengala, tem de ser firme e forte. Ela precisa agüentar todo o seu peso, às vezes. E é também pelo mesmo motivo que a Amizade, como a bengala, deverá ser bem cuidada. Para que nunca se deteriore, para que não apodreça e se torne, de repente, frágil e quebradiça. Uma amizade é algo vivo, algo que necessita de cuidados para não morrer”.

O discípulo recolheu-se novamente por mais algumas semanas. Finalmente, ao tornar a aparecer diante do Mestre, falou: “Mestre, sendo a Amizade o ponto de apoio dos homens, quando todos se encostarem uns aos outros, todos se apoiarem mutuamente, então, nesse dia, não haverá mais nenhum que venha a cair nas águas do Rio da Vida... Não é assim?”

Budha não respondeu. Limitou-se a olhar para a frente, os olhos perdidos no infinito de suas meditações.

Talvez estivesse lamentando o fato de saber que isso jamais viria a acontecer.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 00h47
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Vaidade Mórbida

Há semanas venho estudando alguma coisa para poder desenvolver meu próximo romance. A história toda deverá girar em torno da vaidade. Sim, o tema será exatamente este: vaidade esta vista por diversos e diferentes ângulos, sob seus múltiplos aspectos. A idéia é tentar mostrar que essa característica do ser humano, na realidade, é apenas mais um foco de conflito – ou seja, de infelicidade e de angústia.

E, de repente, leio a notícia sobre a bela modelo de 21 anos – meu Deus, que criança, ainda! – Carolina Reston Macan. A menina morreu, vítima de falência múltipla dos órgãos causada por uma deficiência global de nutrientes e, conseqüentemente, da resistência orgânica. Resumindo: morreu de fome.

Obviamente, a causa mortis seria essa: falência múltipla dos órgãos. Pelo menos é o que o legista – ou patologista – deve ter marcado em seu atestado de óbito. Mas a causa-base, o verdadeiro motivo de Carolina ter tão cedo deixado o convívio de seus parentes, amigos, admiradores e quantos mais tiveram o privilégio de vê-la, ainda que apenas em fotografias, não é outra senão a vaidade.

No caso, uma vaidade mórbida, que a levou a sacrificar de forma ultra-radical um dos prazeres da vida: o ato de comer. Simplesmente, a moça passou fome – voluntariamente – até morrer.

Porém, não a podemos culpar. A vaidade mórbida é uma doença e, como tal, teria de ter sido tratada.

A culpa seria, então de todos aqueles que a viram definhar e nada fizeram? Creio que também não. A culpa, a verdadeira culpada é a vaidade. Não a vaidade da própria Carolina – esta era um quadro psicopatológico – mas sim a vaidade de uma sociedade consumista como um todo, que não se satisfaz jamais e que obriga, que leva pessoas como essa modelo a prescindir de sua saúde – tanto física como psíquica – até chegar ao extremo da morte. Certos estiveram os espanhóis que proibiram modelos excessivamente magras de desfilar. Se isso “pega”, teríamos uma forma – ainda que débil – de impedir que tantas jovens cheias de vida e de sonhos acabassem doentes.

Desta vez, no caso da pobre Carolina, a mídia se manifestou pelo menos um pouco mais do que de outras vezes. Tantas vezes, tantas mortes...

Talvez a sociedade consumista abra os olhos. Talvez deixe de dar tanta importância à vaidade e passe a dar um pouco mais de importância à vida.

Talvez deixe de consumir muitas jovens.



Categoria: Arte e Literatura
Escrito por ryoki às 11h03
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Quinze minutos de fama

Lembro-me de uma cena hilária no Porto de Santos, lá pelos idos de 1954: um casal de ingleses desceu do transatlântico Andes, da British Royal Mail, vestidos como se estivessem chegando no meio da savana africana do final do século XIX. Botas de cano alto, chapéu tipo colonial, roupas cáqui de mangas compridas e véu protetor de mosquitos sobre a cabeça. Como eram ingleses, não creio que tivessem percebido o rídiculo e, no máximo, devem ter comentado entre si que o desagradável daquele lugar era a presença de tantos estrangeiros...

Pois temo que as coisas estejam caminhando para a reprise dessa situação. Li, agora mesmo, um artigo - jamais seria uma reportagem - do Joe Sharkey, aquele jornalista do NY Times que estava a bordo do Legacy no terrível acidente do vôo 1907.

Está certo que a globalização, a velocidade de deslocamento e a necessidade de as pessoas irem cada vez mais longe em busca seja de lazer, seja do ganha-pão, leva a algumas sérias modificações de hábitos e a outras tantas precauções. Coisas normais de pessoas minimamente inteligentes, o que parece não ser o caso de Joe.

Além de ser mais ou menos óbvio que alguém que carregue um celular numa viagem internacional espere que essa moderna máquina de fazer doido funcione em qualquer lugar do mundo - desde que tenha cobertura de sinal para celular, evidentemente - Joe Sharkey parece não gostar definitivamente do Brasil.

Senão, vejamos: para começar, antes que começassem as investigações ele já defendeu os pilotos americanos com unhas e dentes, como se estes fossem os únicos anjos do céu. Não satisfeito, levantou dúvidas quanto à imparcialidade da investigação levada a cabo pela FAB e autoridades brasileiras. Como se não bastasse, disse que eles pousaram numa "obscura base da força aérea" no meio da floresta.

O que ele queria? Um hotel de cinco estrelas no Cachimbo? Até temos alguma coisa semelhante... Mas não numa base aérea de floresta, feita para militares a quem o luxo é coisa secundária, supérflua especialmente quando estão trabalhando. E não acredito que alguém queira passar férias no Campo de Provas Brigadeiro Velloso. Base esta que, diga-se de passagem, de obscura não tem nada.

Joe Sharkey, com todas as suas críticas ao nosso país, ao nosso sistema, à nossa competência como investigadores de um acidente aéreo, esquece-se de levantar as mãos aos céus e agradecer. E agradecer a Deus tê-lo colocado num avião que foi construído robusto o bastante para apenas quebrar uma ponta de asa, não danificar tão seriamente assim o profundor e que conseguiu pousar pondo-o junto com os seus companheiros de viagem, em segurança no solo da "obscura base da força aérea", Campo de Provas Brigadeiro Velloso. E esse avião tão robusto foi construído pela Embraer. A nossa Embraer, brasileira, dirigida por brasileiros, com trabalhadores brasileiros.

E, com certeza, dentre esses trabalhadores tupiniquins, o mais humilde dos faxineiros saberia que carregar um celular para o meio da selva amazônica é bem pior do que esse obscuro jornalista - tão obscuro que confessa no início de sua matéria estar aproveitando o pouco que lhe resta dos seus quinze minutos de fama - disse: "Fora dos Estados Unidos, ele [o celular que ele trazia] equivale a segurar na mão um cachorro quente com mostarda." É pior, Mr. Sharkey. Pelo menos, o hot-dog você poderia comer. O celular não dá. Aliás, não daria nem mesmo para ser usado como supositório.


Categoria: Arte e Literatura
Escrito por ryoki às 09h14
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Mudou de nome: a perseguida agora chama-se verdade!

É engraçado... Todos querem a verdade. Refinando: ambos a querem. No entanto, fogem dela. E não é ela que foge de ninguém, podem apostar. São eles. São os dois. Até parece a história do senhor já muito maduro, já pedindo ao médico não mais uma receita de Viagra, mas sim de alguma droga que o faça esquecer, que à noite, no leito conjugal, encontra as mais estapafúrdias desculpas para não cumprir o seu dever. E levanta-se da cama alegando qualquer coisa – até mesmo que escutou um barulho na cozinha ou que esqueceu de dar leite ao gato – só para poder fugir a obrigação. No bar, com seus companheiros e correligionários, arrota vantagens, mostra-se arrogante, diz que com ele não existe essa história de perseguida, mas sim de alcançada. À noite, a coisa muda... Ou então o outro, cheio de delicadezas e mesuras, que ergue um brinde de champanhe francesa e mostra ser capaz, também, de alcançar. Porém, a conquista realizada, não sabe o que fazer com ela.

Contudo, um deixa entender que não vai fazer nada mesmo, uma vez que já provou essa assertiva. Durante quatro anos, nada mais fez do que comer o pão. Infelizmente, o pão amassado pelo outro (ou por seus pares) durante os oito anos antecedentes. E ambos dizem perseguir a verdade. Como falei antes, possivelmente sem nenhuma vontade efetiva de alcançá-la, pois isto feito, terão de dar conta do recado e, nesse ponto, sabem-se incapazes.

Mas, sejamos justos. Dos dois perseguidores, o já tão falado Picolé de Sechium edule, saiu-se bem melhor. Também não sabemos se, lá para o fim do mês, ele vai chegar à perseguida... E muito menos o que vai fazer com ela depois. Já o outro, antes Bufo hirsutus e hoje Bufo apopleticus, deu-se mal. Por muito pouco não virava suflê de sapo com jiló, tão amarga estava sua expressão.

E, uma pergunta: seria mesmo água que ele estava constantemente bebendo? Alguém conseguiu ver algum passarinho bebendo do mesmo copo?



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 18h19
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Sempre há esperança

Esta noite, às 20:00 hs, pela Rede Bandeirantes, terá lugar o segundo round do embate entre a utopia e a esperança. Lula vs. Alckmin. O primeiro round foi vencido – por pontos, e estreita diferença – pela utopia. Temos esperança neste segundo. Aliás, característica do povo brasileiro: sempre ter esperança.

Contudo, esse mesmo povo tem uma outra característica: é extremamente utópico. Pensa e crê em fantasias como se estas fossem realidades sólidas, comprováveis e factíveis.

Já por essa razão, devemos considerar um primeiro ponto de equilíbrio entre os dois contendores: tanto há esperança como defende-se a utopia.

Temos fé que, para esta luta, a platéia não continue a seguir a teoria proposta por Ludwig Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Philosophicus, em que ele afirma que o homem se encontra numa sala e dela precisa sair; só que todas as portas são falsas – pintadas na parede. O homem tenta exaustivamente abri-las, mas é claro que não consegue. E – pior – não consegue ver que a única porta verdadeira está atrás dele. Para ganhar a liberdade, bastaria virar-se.

Mas a utopia – as portas pintadas – tem um aspecto mais bonito, parece mais atraente... E o homem insiste, tenta abri-las. Num relance, olha para trás, vê a porta verdadeira, mas despreza-a: uma porta com aspecto de velha, com a maçaneta grosseira e enferrujada jamais poderia ser a saída para a luz...

E ali estão as outras, todas novas, reluzentes, parecendo chamá-lo. Uma delas tem de ser a saída, ora bolas!

Esquece-se o homem de que a luz advém das trevas – a dualidade das coisas está aí para comprovar: só pode haver conceito de luz se confrontado com o de escuridão.

Mas voltemos ao nosso ringue. No corner vermelho, a utopia e no verde, a esperança. Ambos os contendores já disseram e alardearam possuir golpes mortais, fortes o bastante para levar o adversário a beijar a lona. Os analistas de plantão – leia-se comentaristas do tipo que preferem dizer quadrilátero em vez de ringue – afirmam que a utopia há-de derrotar a esperança usando os seus próprios pontos fracos. A imensa maioria baseados no passado, em lutas anteriores, em contendas que, correta ou incorretamente, foram vencidas. Já a esperança acredita na vitória por nocaute já nos primeiros minutos do embate. Conta, para isso, com uma fraqueza escarrada do adversário: falta de jogo de pernas – leia-se alicerce intelecto-cultural.

Ao mesmo tempo, parece – aos outros comentaristas, aqueles que são pelo menos um pouco mais preparados – que a esperança possui uma melhor capacidade de absorver golpes. E não tem queixo de vidro. Prova disso está no fato de até mesmo seu preparador ter chegado a desacreditar em sua vitória e ter até dado a impressão de estar buscando, junto à utopia, uma segurança, uma aliança ainda que subliminar ou, se quiserem, uma garantia de que não viria a ser perseguido em tempos posteriores.

Mas temos de ter fé... No mínimo a mesma fé que tem a esperança de que conseguirá encaixar um direto na utopia, pondo-a completamente fora de combate.

E nós, na platéia ao lado do córner verde, estamos torcendo para que a utopia, ao ser atingida, continue seguindo a teoria de Wittgenstein, ligeiramente modificada: sobre aquilo que é indefensável, é mais aconselhável calar.

E, em seu silêncio, acabará por mostrar e expor o queixo de vidro ou o fígado – este, que já deve estar bastante prejudicado – para o golpe de misericórdia, o cruzado de direita que, definitivamente, fará com que ela, a utopia, vá para o lugar de onde jamais deveria ter saído, ou seja, o chão com toda a sua poeira.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 23h09
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Brasil, uma grande lagoa

Já na apresentação dos candidatos deu para notar a diferença. Um debate entre candidatos à Presidência da República, meus amigos, é coisa séria. Implica no mínimo num certo aplomb. E isso, tanto Alckmin como Cristovam demonstraram. Já HH... Não deixa de ser uma falta de respeito para com o eleitorado apresentar-se usando jeans e uma das famosas – pelo menos esperamos e imaginamos que não seja sempre a mesma – blusinhas brancas de babadinhos rendados. Até parece promessa para mãe-de-santo! Está certo que HH não precisaria estar vestindo Dior, Leonard nem mesmo um modelito Daspu. Mas deveria se apresentar de maneira um pouco mais condizente com o evento que esteve vivenciando. Sua equipe de aspones deveria ter lhe contado que um debate televisivo não é a mesma coisa que o corpo-a-corpo nas ruas.

Mas, deixando de lado as críticas sobre a indumentária da top HH, acho que todos os que assistiram o debate tiveram a oportunidade de concordar com o Bufo hirsutus: a virulência da onça alagoana mal se conteve. Aliás, só não extravasou de vez por causa da ausência batraquial. Se ele ali estivesse, o Paranoá seria pequeno para tanta água e lama esparramada.

Sem a majestática presença do Bufo rex, o encontro de candidatos – mesmo porque debate, pelo menos para mim, tem uma outra conotação, algo assim como um jogo de perguntas e respostas rápidas, inteligentes, objetivas e precisas, não uma exposição de idéias em que as perguntas muitas vezes não são mais do que pequenos e delicados ganchos aproveitados para emendar explanações completamente fora do assunto proposto – até chegou a parecer um encontro de compadres. Exclua-se a comadre, uma vez que HH não fez mais do que lamentar e condenar o passado, aproveitando para atacar FHC sempre que atacava Lula, obviamente visando solapar o terreno pisado por Alckmin.

O jogo foi no mínimo interessante. Cristovam e Alckmin pareciam estar combinados, jogando no mesmo time. Um dava a deixa e o outro emendava. Bastante civilizada a atitude. Não duvido que, se milagres existirem e Alckmin chegar ao Planalto, este convide Cristovam para uma pasta. Provavelmente a da Educação, tendo em vista que é este o foco – e praticamente o único tema – da campanha do ex-reitor da UnB. Na verdade, não seria uma má aquisição.

Enfim, num balé bem orquestrado, os dois conseguiram expor minimamente seus planos de governo. Pena que o Bonner tenha sido tão exigente em questão de contagem de tempo e, com isso, acabamos – nós os telespectadores – ficando com uma desagradável sensação de coito interrompido.

Já HH mostrou bem a que veio. Sua incontestável virulência – queixa principal do Bufo pseudo-rex – transpareceu com terrível e triste nitidez. A mágoa de sua expulsão do PT saía por todos os poros, deixando a clara impressão de que, com ela, o revanchismo seria uma meta.

Cristovam deu a tônica do encontro – recuso-me a chamar de debate – quando, ao encerrar, pediu votos para qualquer um que não seja o presidente-candidato, para que seja possível um segundo turno.

Enquanto isso, o Bufo hirsutus coaxava em São Bernardo – segundo ele, a terra onde nasceu politicamente – ao lado de todo o seu bando, incluindo dois mensaleiros: o professor Luizinho e José Mentor. Absolvidos das acusações não por uma questão de justiça, mas sim de política. Podre, evidentemente.
E entre as muitas coisas que coaxou, saiu-se com esta pérola: “Ainda vou publicar um livro sobre alguns articulistas nesses quatro anos de governo para ver a quantidade de maldades” perpetradas contra ele e sua família.

Seria interessante que fizesse isso mesmo. E que esse livro fosse realmente publicado. Porém, sem revisão e sem copy-desk. Que é para que a posteridade veja a que ponto chegamos. Eleger um presidente assim, até que passa. Num momento de revolta, de tentativa de mudança, admite-se. Mas, depois de quatro anos de desencantos e desencontros, repetir o erro... Aí, já nem mesmo é burrice. É a resignação, a admissão da incompetência de eleger.
Ou, simplesmente é uma questão de fraternidade, de espécie.

Afinal de contas, para a sapa, a coisa mais bonita do mundo é o sapo.
E, segundo as pesquisas eleitorais, pelo menos 50% do povo brasileiro pertence ao gênero Bufo.
Bufo stultus.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 09h38
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Será que há algo errado?

Na minha ingenuidade e ignorância política – aliás, justificada mesmo porque a política brasileira atual está muito mais complicada do que jamais – não consigo entender o que acontece com as pesquisas eleitorais. Tenho conversado com muita gente e a imensa maioria garante que não quer uma reprise no Planalto. Em miúdos: não vai votar no Lula. E até mesmo diversos petistas conhecidos meus são da mesma opinião, hoje em dia abominando o partido da ética, afirmando que de ético ele não tem mais nada. E permito-me indagar, para os meus botões, se um dia houve ética no PT... Mas, voltando ao assunto, se a maioria das pessoas com quem tenho conversado – e vejam bem que fazem parte de um universo que pode bem ser considerado como amostra, uma vez que são pessoas de níveis sócio-econômico-culturais bem diferentes – diz-se decepcionada com o Lula e com o PT, como é que pode o fenômeno de as pesquisas estarem apontando a possibilidade – quase certeza – de uma vitória de Lula já no primeiro turno? Será que há algo errado com essas pesquisas, ou será que a metodologia utilizada é tão esdrúxula que aponta justamente o contrário da realidade? Para ser sincero, não quero imaginar que possa haver corrupção até mesmo nisso! Porém, lembrando de que estamos vivendo no Brasil e de que estamos atravessando um período histórico que bem poderia ser chamado de Era da Corrupção, tudo se torna possível. Não pode me passar pela cabeça que indivíduos respeitáveis que me dizem votar em qualquer um menos no Lula, ao chegar a hora da urna, mudem totalmente de opinião. Mas pode-se pensar que se esteja fazendo o jogo do obstetra ladino quando ainda não havia o exame de ultrassom capaz de detectar o sexo do feto: dizia para a mãe que ela estava esperando um menino e, na ficha clínica, marcava menina; se nascesse um menino, ninguém viria fazer qualquer pergunta e ele ainda ficava com fama de profeta; mas se o Destino decidisse que viria uma menina e a mãe aparecesse para reclamar, ele simplesmente diria que ela tinha entendido errado. E mostrava a ficha clínica onde estava escrito menina. A esperança é essa. O brasileiro pesquisado pelo IBOPE, DataFolha, CNT/Sensus, Vox Populi e outros, só pode estar fazendo o jogo do obstetra: diz que vota no Lula, mas na hora H vai marcar outro. E, ao se publicar o resultado oficial da votação, o povo dará uma risadinha marota e apurará os ouvidos para tentar ouvir o canto do Bufo hirsutus ecoando ao longe. Muito ao longe do Paranoá. 



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 10h27
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Silêncio Perigoso

Nossa Mestra, Lya Luft, está com a razão. Somos todos alucinados. Porém, ao mesmo tempo, nada fazemos contra esse estado de coisas. Há 43 anos, nós ainda nos reuníamos e discutíamos. Alguns de nós chegaram mesmo a atuar, a correr riscos nas Assembléias de Estudantes, nos pronunciamentos do Carlos Lacerda no Cine Ritz da Consolação (lembra-se?). Hoje, ficamos sentados diante de nossos computadores recebendo e repassando mensagens... Parece mesmo que não lembramos que a massa populacional do Brasil compreende 4/5 de ignorantes (incluindo-se entre estes os pseudo-intelectuais que, na nossa época, eram simpaticamente chamados de "festivos"). Está certo que a nossa arma é o voto no dia 1º de outubro. Mas infelizmente, será uma arma derrotada. A grande massa ignara vai perpetuar a corja de plantão no poder. Talvez tenhamos uma oportunidade, depois das eleições, mas não acredito que seja pacífica. Nossa arma está, creio eu, por ocasião dessa oportunidade, numa Imprensa digna, independente, desvinculada, apartidária. Uma Imprensa que produza Jornalismo e não essa coisa tendenciosa a que temos assistido. Neste momento da conjuntura política nacional, não se trata mais de ficar tentando "manter as aparências" e de ficar com simpatias pessoais para com o Bufo hirsutus do Planalto. Temos de combater - e eliminar - toda a saparia do brejo planaltino. Temos de passar a limpo este país (já ouvimos esta frase antes, possivelmente na ante-sala de alguma pizzaria) e, para tanto, será preciso que os intelectuais façam uso de sua prerrogativa de formadores de opinião. E temos de agir rápido, pelo menos temos de "montar um esquema" de reação. Antes que se concretize o que o Bufo hirsutus disse para o Straub... Não podemos permitir que um governante fale que tem vontade de fechar o Congresso. E não podemos aceitar que a Imprensa - esta que aí está - fique calada, não se manifeste, não divulgue o que aconteceu, deixando apenas que um ou outro colunista teça um comentário. Estamos a caminho da formação de uma União Socialista das Repúblicas Latino-Americanas. Mesmo sendo um modelo comprovadamente falido (o da URSS), o perigo existe, mesmo porque estamos todos cansados de saber que os "líderes" não possuem outra ideologia que não a do poder. Deter o poder, obviamente, com todas as suas benesses.


Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 18h33
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O Hatzinger que ruge

E vamos aplaudir a teimosia! Aliás, a teimosia é uma atitude bastante esperada nas crianças e adolescentes que, justamente pela ainda pouca vivência, não são capazes de aceitar que há alguma coisa estranha quando todo um batalhão está marchando errado, com exceção de apenas um soldado.

Herr Hatzinger parece ser esse soldado e toda a cúpula do Vaticano está fazendo o papel da mãe do reco que, orgulhosa, diz: Vejam! Todos estão marchando errado, menos o meu filho!

O nosso Papa conseguiu recriar motivos para uma – agora sim, verdadeira – jihad. Não há no planeta um só islamita que não tenha se sentido profundamente ofendido por aquele seu desastrado pronunciamento em Regensburg. E é evidente que sinceros e justificáveis sentimentos de raiva e vingança emergiram fazendo com que o clamor inicial acabasse por se transformar em atos de violência.

Porém, nos dias de hoje, uma guerra santa não é movida apenas por conceitos religiosos, mas também por motivações políticas e econômicas que, justamente por estarmos no Século XXI, acabam por pesar mais nas ações e reações advindas de um incidente que, no frigir dos ovos, não deixa de ser uma excelente desculpa para acender o estopim.

Herr Hatzinger fez a besteira. Como uma criança, que fala sem pensar. Não contente, persistiu na burrice e está teimando em não se desculpar. Como um adolescente que não quer reconhecer o erro.

O resultado está aí: movimentação em torno das armas, todos prontos para usá-las contra o catolicismo.

Só contra o catolicismo? Só contra o Vaticano?

Não. As bandeiras queimadas em Basra não foram apenas as do Papa, mas também as de Israel – que nada tem a ver com Herr Hatzinger – e dos USA – cuja maioria populacional não é católica.

A guerra santa eclodirá entre o Oriente Médio – leia-se islamismo – contra o Ocidente, independentemente das religiões abraçadas.

As ameaças de ataques terroristas contra o Vaticano têm uma conotação diferente. Parece que ouvimos os líderes islâmicos – na verdade líderes políticos que seguem o Islã, ou dizem que seguem – falando: Vamos atacar o Vaticano para provocar a reação dos americanos.

Será que Herr Hatzinger não imaginava que aquele seu pronunciamento haveria de detonar uma reação desse porte por parte dos islamitas? Ou será que ele apenas quis testar o quanto de costas quentes ele tem?

Seria bom que algum desses cardeais que vivem no meio do luxo e intelectualidade do Vaticano soprasse no ouvido do Papa que o orgulho por não querer reconhecer o erro – e conseqüentemente, pedir desculpas – pode levar a conseqüências muito mais sérias até mesmo do que foi o 11 de Setembro. E, em algum momento desse conselho, tentar injetar na mente do Herdeiro de São Pedro, a idéia de que o rato, para rugir, tem de no mínimo estar bem defendido pelo leão. Aliás, pelo verdadeiro leão.



Categoria: Contos e Crônicas
Escrito por ryoki às 17h59
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